{"id":708,"date":"2011-03-28T08:45:43","date_gmt":"2011-03-28T11:45:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www2.faac.unesp.br\/blog\/obsmidia\/?p=708"},"modified":"2011-04-04T15:31:53","modified_gmt":"2011-04-04T18:31:53","slug":"midia-democracia-e-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.faac.unesp.br\/blog\/obsmidia\/2011\/03\/28\/midia-democracia-e-politica\/","title":{"rendered":"M\u00eddia, democracia e pol\u00edtica"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #000000\"><strong>Jefferson O. Goulart<\/strong><\/span><\/p>\n<pre><span style=\"color: #000000\"><strong>\r\n<\/strong><\/span><\/pre>\n<p><span style=\"color: #000000\">\u00c9 ponto pac\u00edfico que imprensa livre, opini\u00e3o p\u00fablica informada e povo soberano s\u00e3o requisitos para qualquer democracia. Entre o enunciado te\u00f3rico e a realidade, por\u00e9m, h\u00e1 uma enorme dist\u00e2ncia que separa o dever ser dos fatos concretos. Afora o previs\u00edvel acirramento pol\u00edtico, n\u00e3o \u00e9 por outro motivo que o debate sobre o papel da m\u00eddia polarizou boa parte da campanha eleitoral de 2010*.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Professar valores e fazer juras a princ\u00edpios ajuda pouco, mesmo porque as palavras podem ser usadas de diferentes maneiras para prop\u00f3sitos nem sempre republicanos e autenticamente liberais. Basta lembrar a c\u00e9lebre express\u00e3o tornada lema de a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do udenismo: \u201co pre\u00e7o da liberdade \u00e9 a eterna vigil\u00e2ncia\u201d. De autoria controversa, a frase serviu de inspira\u00e7\u00e3o golpista em v\u00e1rios momentos, muitos traum\u00e1ticos como o suic\u00eddio de Vargas e o golpe de 1964.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Pergunta preliminar: \u00e9 poss\u00edvel que a imprensa se mantenha aut\u00f4noma em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas? Ou seja, \u00e9 poss\u00edvel ser independente do poder? Poss\u00edvel \u00e9, mas nem sempre este princ\u00edpio \u00e9 preservado. No Brasil, j\u00e1 em meados do s\u00e9culo XX, o problema se colocou de maneira cristalina quando a imprensa jogou papel determinante na afirma\u00e7\u00e3o do ide\u00e1rio \u201cliberal\u201d das elites pol\u00edticas e econ\u00f4micas, refletindo as aspira\u00e7\u00f5es de certos grupos sociais e assumindo-se como parte do processo pol\u00edtico.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">As lutas abolicionista, republicana e pela afirma\u00e7\u00e3o de uma identidade nacional (e de um Estado nacional) s\u00e3o grandes exemplos nos quais a imprensa da \u00e9poca foi indisfar\u00e7avelmente <em>partisan<\/em>, seja conservadora, seja progressista. N\u00e3o \u00e9 casual que os ide\u00f3logos e dirigentes dos partidos pol\u00edticos tivessem nas p\u00e1ginas dos jornais um canal privilegiado de interlocu\u00e7\u00e3o e de difus\u00e3o de id\u00e9ias. Os jornais tinham posi\u00e7\u00e3o e prefer\u00eancias, como ainda t\u00eam nos dias atuais estes e outros meios de comunica\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">N\u00e3o h\u00e1 neutralidade poss\u00edvel, esta \u00e9 a conclus\u00e3o banal quando tratamos de informa\u00e7\u00e3o, opini\u00e3o p\u00fablica e pol\u00edtica, sem falar na dimens\u00e3o comercial deste neg\u00f3cio e da conhecida depend\u00eancia privada do p\u00fablico. Para um debate de bom n\u00edvel, \u00e9 preciso reconhecer esta verdade inelut\u00e1vel, problematizando a dif\u00edcil equa\u00e7\u00e3o entre a ado\u00e7\u00e3o de uma linha editorial qualquer e uma cobertura jornal\u00edstica minimamente id\u00f4nea \u2013 problema ainda muito longe de ser resolvido.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">A sociedade contempor\u00e2nea se tornou mais intricada, e com isso os processos de forma\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica tamb\u00e9m se complexificaram, a ponto de os cidad\u00e3os n\u00e3o se deixarem mais se induzirem facilmente at\u00e9 em raz\u00e3o da constitui\u00e7\u00e3o de novas redes comunicacionais nas quais se produzem e circulam informa\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Nesse sentido, \u00e9 um grave equ\u00edvoco reduzir a vida p\u00fablica e a pol\u00edtica a dimens\u00f5es estritamente moralizantes sob a desculpa de que assim ter\u00edamos uma disputa pelo poder supostamente mais \u00e9tica. Sobram exemplos em que o desdobramento mais \u201cnatural\u201d seria demonizar indiv\u00edduos e institui\u00e7\u00f5es estranhos aos padr\u00f5es preconizados. A esta conduta se soma a tend\u00eancia midi\u00e1tica \u00e0 espetaculariza\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Como adverte o professor Milton Meira do Nascimento [FFLCH\/USP], \u201cquanto est\u00e1 em jogo o recurso a uma verdade absoluta para a salva\u00e7\u00e3o da vida pol\u00edtica, isto implica a busca de preceitos morais universais para comandar a a\u00e7\u00e3o. E quando a moral universal invade a pol\u00edtica, ou \u00e9 o fim da moral ou o fim da pol\u00edtica\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Dito de outro modo, a m\u00eddia n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o tem autoridade para falar em nome da soberania popular como pode confundir seu direito de integr\u00e1-la com uma tomada de posi\u00e7\u00e3o em que suas convic\u00e7\u00f5es e interesses se confundem com seu papel informativo. Ou seja, informar criticamente \u00e9 uma atribui\u00e7\u00e3o trivial da m\u00eddia, mas a manipula\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o e a organiza\u00e7\u00e3o de campanhas favor\u00e1veis ou contr\u00e1rias a candidatos e a partidos extrapolam \u2013 e muito \u2013 suas prerrogativas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Aqui conv\u00e9m lembrar a not\u00e1vel observa\u00e7\u00e3o do pesquisador Fernando Lattman-Weltman [CPDOC\/FGV]: \u201cquem deu aos jornalistas a atribui\u00e7\u00e3o de julgar, absolver e condenar, sejam os eventuais pecados dos homens p\u00fablicos, sejam as propens\u00f5es do eleitorado num Estado de Direito e numa democracia moderna digna desse nome?\u201d. H\u00e1 que se lembrar, pois, de alguns detalhes da atribui\u00e7\u00e3o de responsabilidades em democracias: \u201cquem julga, em nosso regime, \u00e9 a Justi\u00e7a. E quem elege \u00e9 o povo\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">A m\u00eddia n\u00e3o pode se comportar como partido pol\u00edtico, que advoga determinado programa e disputa o poder, porque isto n\u00e3o s\u00f3 a desqualifica como frauda a democracia. Este \u00e9 o ponto que n\u00e3o pode ser ignorado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">A m\u00eddia cultiva o h\u00e1bito da cr\u00edtica, para o bem e para o mal, mas tem enorme dificuldade \u2013 uma aut\u00eantica fobia patol\u00f3gica \u2013 para admitir a cr\u00edtica, como se estivesse imune e acima da avalia\u00e7\u00e3o dos mortais, mesmo que ningu\u00e9m lhe tenha outorgado o privil\u00e9gio de pairar sobre a sociedade. A despeito da semelhan\u00e7a fon\u00e9tica, liberdade de imprensa \u00e9 diferente de liberdade de empresa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">A democracia precisa mais e mais de liberdade de informa\u00e7\u00e3o, mas dispensa a indisfar\u00e7\u00e1vel m\u00eddia partidarizada. Essa agenda ainda est\u00e1 aberta, e certamente integra o escopo do debate inconcluso sobre o marco regulat\u00f3rio da Comunica\u00e7\u00e3o no Brasil.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\"><em>(*) Vers\u00e3o modificada e ampliada de artigo originalmente publicado no Jornal de Piracicaba, p. A3, em 26\/09\/2010.<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jefferson O. Goulart \u00c9 ponto pac\u00edfico que imprensa livre, opini\u00e3o p\u00fablica informada e povo soberano s\u00e3o requisitos para qualquer democracia. Entre o enunciado te\u00f3rico e a realidade, por\u00e9m, h\u00e1 uma enorme dist\u00e2ncia que separa o dever ser dos fatos concretos. 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