{"id":609,"date":"2010-11-30T06:55:24","date_gmt":"2010-11-30T09:55:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www2.faac.unesp.br\/blog\/obsmidia\/?p=609"},"modified":"2010-12-09T14:50:01","modified_gmt":"2010-12-09T17:50:01","slug":"uma-outra-comunicacao-e-possivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.faac.unesp.br\/blog\/obsmidia\/2010\/11\/30\/uma-outra-comunicacao-e-possivel\/","title":{"rendered":"Uma outra comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel?"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #000000\"><strong>Alessandra Possebon<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\"><strong><br \/>\n<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\"> <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">A comunica\u00e7\u00e3o como a entendemos hoje nasce com os ideais da Idade Moderna, que se diferencia da Idade M\u00e9dia essencialmente pela concep\u00e7\u00e3o de sujeito aut\u00f4nomo, impulsionada pelos ideais iluministas. Portanto, a comunica\u00e7\u00e3o estava vinculada ao ideal revolucion\u00e1rio de amplia\u00e7\u00e3o da esfera p\u00fablica, compreendida como dimens\u00e3o da vida social em que as pessoas podem manifestar suas ideias livremente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Emerge ent\u00e3o na sociedade moderna a demanda pela informa\u00e7\u00e3o, pela amplia\u00e7\u00e3o do debate p\u00fablico. Partindo desses pressupostos, podemos considerar que a hist\u00f3ria do jornalismo acompanha a hist\u00f3ria da sociedade moderna. Ciro Marcondes Filho (2000) chama a primeira fase do jornalismo de jornalismo de Ilustra\u00e7\u00e3o, com publica\u00e7\u00f5es que defendiam causas pol\u00edticas espec\u00edficas. A segunda fase pode ser chamada de jornalismo mercantil, que passa a vender informa\u00e7\u00e3o e tentar diferenciar informa\u00e7\u00e3o de opini\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Com a venda de informa\u00e7\u00f5es o jornalismo caminhou para a cria\u00e7\u00e3o e amplia\u00e7\u00e3o de empresas de comunica\u00e7\u00e3o, e o fortalecimento dessas empresas, com o desenvolvimento de tecnologias da informa\u00e7\u00e3o, remete ao que poder\u00edamos chamar hoje de jornalismo tecnol\u00f3gico, que busca ser multilinguagem e \u00e9 marcado pelo monop\u00f3lio das empresas transnacionais.\u00a0 Analisar esse percurso passa inevitavelmente pelas tentativas de compreens\u00e3o da sociedade moderna como um todo. Octavio Ianni (2000) coloca que, na modernidade, conceitos cl\u00e1ssicos como cidadania, ideologia e sociedade s\u00e3o compreendidos como consumo, mercadoria e mercado, e s\u00e3o estes \u00faltimos os crivos do que \u00e9 disseminado pelos grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Quando falamos em jornalismo tecnol\u00f3gico, estamos tratando de uma nova esfera representativa que est\u00e1 se construindo com o avan\u00e7o surpreendente das novas tecnologias. Esta nova perspectiva afeta todas as rela\u00e7\u00f5es e cria novas formas de compreens\u00e3o da realidade e das representa\u00e7\u00f5es. Muniz Sodr\u00e9 (2002) desenvolveu o conceito de bios midi\u00e1tico em que, revisitando as inst\u00e2ncias da vida colocadas por Arist\u00f3teles, afirma que h\u00e1 um novo espa\u00e7o de exist\u00eancia contempor\u00e2neo, que possui valores t\u00e9cnicos, sociais e burocr\u00e1ticos pr\u00f3prios e tem como uma de suas caracter\u00edsticas a supervaloriza\u00e7\u00e3o da imagem, fortalecendo os simulacros e criando uma outra esfera p\u00fablica com ideais diferentes daqueles colocados por Habermas (1984), que intensifica a falsa sensa\u00e7\u00e3o de democratiza\u00e7\u00e3o do poder e da informa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">De maneira paralela e concomitante, nascem formas de comunica\u00e7\u00e3o independentes aos poderes institu\u00eddos, \u00e9 o que John Downing (2002) chama de m\u00eddia radical alternativa, que tem como seus argumentos centrais a pluralidade das culturas populares e o di\u00e1logo constante entre as culturas de oposi\u00e7\u00e3o, culturas de massa e culturas populares.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Na busca de um conceito de cultura popular, Downing (2002) problematiza alguns te\u00f3ricos como Theodor Adorno e Max Horkeimer, autores da Escola de Frankfurt. Adorno, ao rever o conceito de cultura de massa produzida dentro da l\u00f3gica industrial, desenvolve o conceito de ind\u00fastria cultural. Downing coloca que a ind\u00fastria cultural impede a criatividade e limita a constru\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica para al\u00e9m das classes dominantes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Ao observamos a abordagem s\u00f3cio hist\u00f3rica de cultura popular colocada pelos te\u00f3ricos dos Estudos Culturais (Escola de Birmingham), constata-se que, na busca por trabalhar os conceitos de maneira dial\u00e9tica, que em Stuart  Hall (2003) est\u00e3o inseridos em uma perspectiva diasp\u00f3rica (compreende as hibridiza\u00e7\u00f5es inevit\u00e1veis entre as culturas, especialmente diante dos processos de deslocamentos marcados pelas migra\u00e7\u00f5es e imigra\u00e7\u00f5es), h\u00e1 uma supera\u00e7\u00e3o de conceitos enrijecidos de cultura popular, que a vinculam a uma tradi\u00e7\u00e3o folclorista, n\u00e3o engajada e limitada dentro de um espa\u00e7o de tempo e territ\u00f3rio.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Para Downing (2002), toda forma de m\u00eddia influencia de alguma maneira o movimento das sociedades, portanto, o estudo contextualizado da comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ignorar as manifesta\u00e7\u00f5es n\u00e3o vinculadas \u00e0 grande m\u00eddia. Ainda de acordo com o autor, as manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas como dan\u00e7as, anedotas, teatro, gravuras, filmes, tatuagens, murais e grafite podem ser compreendidas como m\u00eddia radical, tanto quanto o uso de meios mais tradicionais de comunica\u00e7\u00e3o como jornais, emissoras de r\u00e1dio e televis\u00e3o e internet.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">O cen\u00e1rio da comunica\u00e7\u00e3o brasileira se demonstra cada vez mais perverso, marcado por monop\u00f3lios, pelo n\u00e3o respeito aos artigos da Constitui\u00e7\u00e3o, por guerras claras de poder e pelo uso indevido das informa\u00e7\u00f5es, em um processo que mais confunde do que esclarece a popula\u00e7\u00e3o. A concep\u00e7\u00e3o de uma m\u00eddia para al\u00e9m dos grandes grupos transnacionais de comunica\u00e7\u00e3o, independentemente de ser chamada alternativa, radical, subalterna, contra-hegem\u00f4nica ou popular, se caracteriza essencialmente pela cr\u00edtica e pela manifesta\u00e7\u00e3o da diversidade e \u00e9 necess\u00e1ria para a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade que saiba lidar melhor com a pluralidade de culturas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Entre os exemplos de m\u00eddia alternativa no Brasil, podemos destacar o jornal \u201cBrasil de Fato\u201d, que foi lan\u00e7ado no F\u00f3rum Social Mundial de Porto Alegre e h\u00e1 oito anos circula semanalmente com distribui\u00e7\u00e3o nacional. O jornal mant\u00e9m tamb\u00e9m um <em>website<\/em>: <a href=\"http:\/\/www.brasildefato.com.br\/\">http:\/\/www.brasildefato.com.br\/<\/a> , que foi atualizado no segundo semestre de 2010. \u00a0Outro exemplo \u00e9 a revista \u201cCaros Amigos\u201d, lan\u00e7ada em 1997 com edi\u00e7\u00f5es mensais, tamb\u00e9m de circula\u00e7\u00e3o nacional. Assim como o \u201cBrasil de Fato\u201d, a revista mant\u00e9m um site (<a href=\"http:\/\/carosamigos.terra.com.br\/\">http:\/\/carosamigos.terra.com.br\/<\/a>) que traz links para os blogs dos articulistas e rep\u00f3rteres.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">A internet tem sido muito utilizada pelos movimentos sociais e pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o alternativa que j\u00e1 existiam em plataformas tradicionais como uma ferramenta de divulga\u00e7\u00e3o e de troca de informa\u00e7\u00f5es que v\u00e3o al\u00e9m das pautas da grande m\u00eddia. Reunindo v\u00e1rias linguagens, o novo site do jornal \u201cBrasil de Fato\u201d, por exemplo, traz al\u00e9m das principais not\u00edcias veiculadas no jornal impresso, textos de articulistas, v\u00eddeos, charges e podcasts do N\u00facleo Piratininga de Comunica\u00e7\u00e3o (NPC).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Outra possibilidade de uso da internet s\u00e3o as r\u00e1dios comunit\u00e1rias, que possibilitam que emissoras de comunidades como a da favela de Santa Marta (<a href=\"http:\/\/www.radiosantamarta.com.br\/\">www.radiosantamarta.com.br<\/a>) e de Heli\u00f3polis (<cite><a href=\"http:\/\/www.heliopolisfm.com.br\/\">www.heliopolisfm.com.br<\/a><\/cite><cite>)<\/cite> sejam ouvidas pelo mundo inteiro. Al\u00e9m do \u00e1udio, no <em>site<\/em> da r\u00e1dio Santa Marta \u00e9 poss\u00edvel acompanhar tamb\u00e9m em v\u00eddeo o trabalho da comunidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">A possibilidade da converg\u00eancia de diversas linguagens na internet permite a amplia\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os da m\u00eddia alternativa e a cria\u00e7\u00e3o de redes de trocas de informa\u00e7\u00e3o como o Centro de M\u00eddia Independente (CMI &#8211; <a href=\"http:\/\/www.midiaindependente.org\/\">www.midiaindependente.org<\/a>), que depende inteiramente de colaboradores que enviam artigos, v\u00eddeos, fotos e \u00e1udios.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Ainda que a maioria dos brasileiros n\u00e3o tenha acesso \u00e0 internet, \u00e9 imprescind\u00edvel considerar a relev\u00e2ncia do meio digital para a troca de informa\u00e7\u00f5es. Os movimentos sociais t\u00eam criado redes de di\u00e1logo no espa\u00e7o virtual que possibilitam a divulga\u00e7\u00e3o dos trabalhos e a amplia\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es regionais e nacionais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">A democratiza\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o se resolve apenas com o acesso \u00e0 internet, mas \u00e9 imprescind\u00edvel considerar a relev\u00e2ncia do meio digital para a amplia\u00e7\u00e3o das trocas de informa\u00e7\u00f5es e sua contribui\u00e7\u00e3o para a valoriza\u00e7\u00e3o da diversidade e da pluralidade, que s\u00e3o objetivos essenciais da luta por uma sociedade mais igualit\u00e1ria.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\"> <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\"> <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\"> <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">MARCONDES FILHO, Ciro. <strong>A Saga dos C\u00e3es Perdidos<\/strong>.S\u00e3o Paulo: Hacker editores, 2002.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">HABERMAS,Jurgen. <strong>Mudan\u00e7a Estrutural da Esfera P\u00fablica<\/strong>. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">IANNI, Octavio. <strong>Enigmas da Modernidade Mundo<\/strong>. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2000.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">SODR\u00c9, Muniz. <strong>Antropol\u00f3gica do Espelho<\/strong>. Petr\u00f3polis: Vozes, 2002.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">DOWNING, John. <strong>M\u00eddia Radical<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Editora SENAC, 2002.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">ADORNO, T e HORKHEIMER. M. Ind\u00fastria Cultural \u2013 o esclarecimento como mistifica\u00e7\u00e3o das massas. In: <strong>Dial\u00e9tica do esclarecimento. <\/strong>Rio de Janeiro: Zahar, 1996.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">HALL, Stuart. <strong>Da Di\u00e1spora: Identidades e Media\u00e7\u00f5es Culturais<\/strong>. Belo Horizonte: UFMG, 2003.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alessandra Possebon A comunica\u00e7\u00e3o como a entendemos hoje nasce com os ideais da Idade Moderna, que se diferencia da Idade M\u00e9dia essencialmente pela concep\u00e7\u00e3o de sujeito aut\u00f4nomo, impulsionada pelos ideais iluministas. 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