{"id":514,"date":"2010-09-30T14:20:53","date_gmt":"2010-09-30T17:20:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www2.faac.unesp.br\/blog\/obsmidia\/?p=514"},"modified":"2010-09-30T15:29:23","modified_gmt":"2010-09-30T18:29:23","slug":"da-crenca-a-ciencia-enquadramentos-do-fantastico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.faac.unesp.br\/blog\/obsmidia\/2010\/09\/30\/da-crenca-a-ciencia-enquadramentos-do-fantastico\/","title":{"rendered":"Da cren\u00e7a \u00e0 ci\u00eancia: enquadramentos do Fant\u00e1stico"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #000000\"><strong> <\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\"><strong> <\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\"><strong>Adriana Donini<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\"><strong> <\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\"><strong>J\u00e9ssica de C\u00e1ssia Rossi<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\"><strong> <\/strong><\/span><\/p>\n<pre><span style=\"color: #000000\">\u00a0<\/span><\/pre>\n<p><span style=\"color: #000000\">Em 29 de agosto, o programa <em>Fant\u00e1stico<\/em>, da Rede Globo, estreou a s\u00e9rie \u201c\u00c9 bom pra qu\u00ea?\u201d, apresentada pelo m\u00e9dico Drauzio Varela, que j\u00e1 comandou outras produ\u00e7\u00f5es na \u00e1rea de sa\u00fade exibidas pelo programa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">A emissora divulgou no seu s\u00edtio na internet que o objetivo do quadro \u00e9 \u201cdiscutir os usos e abusos dos tratamentos m\u00e9dicos feitos com produtos derivados de plantas que n\u00e3o passaram pelo crivo cient\u00edfico dos estudos cl\u00ednicos, e analisar as perspectivas da fitoterapia medicinal\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Por meio da metodologia denominada enquadramento ou <em>framing<\/em> \u00e9 poss\u00edvel identificar formas de abordagem e interpreta\u00e7\u00f5es realizadas pela m\u00eddia. Enquadrar significa selecionar alguns aspectos e salient\u00e1-los de maneira que seja promovida uma defini\u00e7\u00e3o particular do problema, que o assunto tratado seja emoldurado sob a \u00f3tica do ve\u00edculo de comunica\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Com o intuito de analisar o enquadramento presente nessa s\u00e9rie, estudamos os tr\u00eas primeiros cap\u00edtulos, veiculados em <a href=\"http:\/\/fantastico.globo.com\/Jornalismo\/FANT\/0,,MUL1616472-15607-404,00.html\">29 de agosto<\/a>, <a href=\"http:\/\/fantastico.globo.com\/Jornalismo\/FANT\/0,,MUL1617411-15607-404,00.html\">5<\/a> e <a href=\"http:\/\/fantastico.globo.com\/Jornalismo\/FANT\/0,,MUL1618463-15607-404,00.html\">12<\/a> de setembro. Consideramos, principalmente a categoriza\u00e7\u00e3o sobre a fitoterapia e em rela\u00e7\u00e3o a um qu\u00edmico do Maranh\u00e3o que receita pomada de graviola, e tamb\u00e9m o discurso utilizado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Foi poss\u00edvel notar que prevaleceu a associa\u00e7\u00e3o do uso de plantas no tratamento de doen\u00e7as \u00e0 inefic\u00e1cia e \u00e0 negatividade, como nos seguintes trechos: \u201cMas ser\u00e1 poss\u00edvel existir alguma coisa capaz de nos livrar de praticamente todas as doen\u00e7as? E ali, no jardim, no quintal, na ro\u00e7a, na feira, ao alcance da m\u00e3o?\u201d; \u201cF\u00e1tima Regina ficou quase um ano doente e teve que tirar a ves\u00edcula. O diagn\u00f3stico do m\u00e9dico: intoxica\u00e7\u00e3o\u201d; \u201ca popularidade dos ch\u00e1s e das infus\u00f5es n\u00e3o tem sido acompanhada de estudos cient\u00edficos\u201d; \u201cTratar uma doen\u00e7a grave com produtos alternativos pode ter consequ\u00eancias perigosas\u201d; \u201co extrato de graviola, testado em laborat\u00f3rio, pode multiplicar as c\u00e9lulas cancer\u00edgenas\u201d; \u201cNa sala de cirurgia, Sebastiana Teixeira de Oliveira ainda n\u00e3o sabe que as sete ervas e a argila n\u00e3o ajudaram\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">O discurso da efic\u00e1cia de medicamentos alop\u00e1ticos, se comparado ao uso de plantas, ficou evidente em v\u00e1rios trechos dos cap\u00edtulos da s\u00e9rie, como nesse em que se procura mostrar que a utiliza\u00e7\u00e3o de medicamentos tendo por base a tradi\u00e7\u00e3o popular n\u00e3o trouxe benef\u00edcios. \u201c(&#8230;) enquanto a medicina era feita dessa maneira, epidemias matavam popula\u00e7\u00f5es inteiras; \u00e9ramos incapazes de impedir a progress\u00e3o das doen\u00e7as, ou mesmo de aliviar a dor. A milenar medicina chinesa era t\u00e3o prec\u00e1ria que, at\u00e9 o in\u00edcio do s\u00e9culo passado, os chineses viviam, em m\u00e9dia, pouco mais de 30 anos. A grande mudan\u00e7a aconteceu na primeira metade do s\u00e9culo XX, com descobertas como a da penicilina, o primeiro antibi\u00f3tico. Antes dessa revolu\u00e7\u00e3o, a expectativa de vida, na Europa desenvolvida, era de 40 anos. Hoje dobrou. Em alguns, pa\u00edses j\u00e1 passa dos 80\u201d; e tamb\u00e9m nesta fala: \u201cHoje, em casa, Dona Sebastiana diz que fez bem de n\u00e3o seguir as recomenda\u00e7\u00f5es dos terapeutas alternativos. Se tivesse esperado mais tempo para fazer a bi\u00f3psia, a doen\u00e7a teria avan\u00e7ado. Agora, ela est\u00e1 enfrentando a quimioterapia com mais confian\u00e7a\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Em trecho de entrevista com Gilberto Schwartsmann, coordenador do Laborat\u00f3rio de C\u00e2ncer do Hospital das Cl\u00ednicas, notamos que o depoimento serve para legitimar o enquadramento negativo dado \u00e0 fitoterapia e para valorizar a defesa de etapas seguidas pelos medicamentos convencionais: \u201cNa oncologia, talvez metade das quimioterapias que n\u00f3s usamos venham da natureza, mas isso \u00e9 diferente de usar a natureza direto. Isso \u00e9 o que a gente n\u00e3o gosta. \u00c9 uma coisa irrespons\u00e1vel e ilegal\u201d. E, no coment\u00e1rio do m\u00e9dico Daniel Deheinzelin, \u201cinfelizmente, para esse tipo de preparado, a gente n\u00e3o tem nenhuma evid\u00eancia. Isso n\u00e3o foi testado da maneira como foram testados outros rem\u00e9dios\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">O <em>Fant\u00e1stico <\/em>n\u00e3o sustenta somente a falta de estudos cient\u00edficos para o uso dos medicamentos fitoter\u00e1picos, mas tamb\u00e9m procura mostrar que, quando esses medicamentos s\u00e3o testados em laborat\u00f3rios, os resultados n\u00e3o apontam efic\u00e1cia no seu uso. \u201cA pomada de graviola n\u00e3o foi aprovada. N\u00e3o houve diferen\u00e7a entre os ferimentos tratados com a pomada feita com a planta e naqueles tratados com um creme neutro. Ou seja, tanto faz uma pomada com ou sem graviola\u201d. Ou ainda, apresentam efeitos agressivos: \u201c\u2018Quando nos tratamos com o extrato de graviola, o que n\u00f3s observamos \u00e9 que houve um aumento de c\u00e9lulas em rela\u00e7\u00e3o a sem nada de tratamento\u2019, diz Caroline Bruneto de Farias, pesquisadora do Hospital das Cl\u00ednicas de Porto Alegre\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Outro discurso saliente \u00e9 o de que a fitoterapia \u00e9 utilizada nos casos em que h\u00e1 uma defici\u00eancia do sistema p\u00fablico de sa\u00fade, conforme observamos nesta fala: \u201cExistem regi\u00f5es de alguns pa\u00edses em desenvolvimento e, majoritariamente os pa\u00edses da \u00c1frica, em que algumas vezes a op\u00e7\u00e3o preferencial \u00e9 pelo fitoter\u00e1pico. Ela n\u00e3o \u00e9 nem preferencial, ela \u00e9 quase mandat\u00f3ria porque as pessoas n\u00e3o t\u00eam outra op\u00e7\u00e3o terap\u00eautica\u201d; \u201cO que a comunidade usa em lugar dos rem\u00e9dios que n\u00e3o chegam \u00e9 colhido em uma horta\u201d. Esse discurso tamb\u00e9m \u00e9 refor\u00e7ado na sele\u00e7\u00e3o de falas de entrevistados como do Presidente do Conselho Federal de Medicina, Roberto Luiz D\u2019Avila: \u201cE n\u00f3s j\u00e1 alertamos, inclusive, as autoridades p\u00fablicas sobre isso. Isso me parece muito mais um remendo, que transforma aquilo que deveria ser de qualidade num arremedo de um tratamento. As pessoas est\u00e3o enganadas. As pessoas est\u00e3o recebendo algo que n\u00e3o \u00e9 o melhor\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">O <em>Fant\u00e1stico<\/em> mostra que, nem mesmo quando o tratamento de doen\u00e7as \u00e9 feito com a fitoterapia e apresenta resultados positivos, eles podem ser atribu\u00eddos ao uso de plantas alternativas. Nesse caso, o \u00eaxito do tratamento \u00e9 atribu\u00eddo ao estado psicol\u00f3gico do paciente, como no seguinte trecho: \u201cO simples fato de ser bem acolhida e de receber uma receita na qual a pessoa acredita reduz a ansiedade e pode aliviar sintomas. Em medicina, isso \u00e9 chamado efeito placebo\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Al\u00e9m disso, o programa justifica a falta de estudos cient\u00edficos sobre as plantas ao ritmo acelerado no uso da medicina alternativa e aponta as consequ\u00eancias que essa incompatibilidade proporciona: \u201cInfelizmente a popularidade dos ch\u00e1s e das infus\u00f5es n\u00e3o tem sido acompanhada de estudos cient\u00edficos. A falta de pesquisa abre caminhos para indica\u00e7\u00e3o de tratamentos in\u00fateis, para a demora em buscar assist\u00eancia m\u00e9dica adequada e para a pr\u00e1tica do charlatanismo\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">O uso das plantas tamb\u00e9m foi associado \u00e0 religi\u00e3o, como percebemos na seguinte passagem: \u201c\u2018Muitos dos que divulgam tratamentos alternativos s\u00e3o ligados a algumas religi\u00f5es, padres e outros e a pessoa vai para l\u00e1, quer dizer, se eu n\u00e3o acreditar no padre, em que eu vou acreditar?\u2019, afirma o m\u00e9dico Riad Younes\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Pelos trechos apresentados, notamos que o programa demonstra que a fitoterapia pode causar preju\u00edzos \u00e0 pr\u00e1tica m\u00e9dica: \u201cA farmac\u00eautica estudou a rela\u00e7\u00e3o entre rem\u00e9dios contra o c\u00e2ncer e plantas. Ela concluiu que mais da metade dos pacientes que faziam os dois tratamentos estavam sujeitos a intera\u00e7\u00f5es medicamentosas\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">No enquadramento dado pelo programa, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade tamb\u00e9m n\u00e3o age adequadamente no controle dos fitoter\u00e1picos: \u201cOs oitos fitoter\u00e1picos aprovados pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade e distribu\u00eddos pelo SUS n\u00e3o passaram pelos estudos cient\u00edficos exigidos para os rem\u00e9dios convencionais alop\u00e1ticos. Por isso, n\u00e3o se sabe com detalhes que efeitos colaterais podem provocar\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">O discurso da defesa da classe m\u00e9dica \u00e9 evidente quando Drauzio faz a seguinte afirma\u00e7\u00e3o: \u201cO professor Ant\u00f4nio Augusto Brand\u00e3o Fraz\u00e3o d\u00e1 aulas na Universidade Estadual do Maranh\u00e3o. Ele tem um centro de tratamento com plantas na \u00e1rea do Aeroporto de Imperatriz, constru\u00eddo e mantido pela Infraero. Nesse local, ele consulta pacientes, faz diagn\u00f3sticos e receita rem\u00e9dios a base de plantas, sem ser m\u00e9dico. O professor \u00e9 qu\u00edmico\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Assim, constatamos que a s\u00e9rie \u201c\u00c9 bom pra qu\u00ea?\u201d valeu-se de diversas falas, incluindo de quem faz uso das plantas em tratamentos, m\u00e9dicos, pesquisadores e representantes de \u00f3rg\u00e3os da \u00e1rea da sa\u00fade para produzir um discurso que enquadra a fitoterapia como algo que carece de mais estudos, e que, para ser oficializada, precisa\u00a0 ser submetida \u00e0 pol\u00edtica da ind\u00fastria farmac\u00eautica e, consequentemente, gerar rendimentos. Com isso, nota-se que, com a \u00eanfase aos pontos negativos desse tema, foram desconsiderados a produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica j\u00e1 acumulada nesse campo e os seus resultados.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\"> <\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Adriana Donini J\u00e9ssica de C\u00e1ssia Rossi \u00a0 Em 29 de agosto, o programa Fant\u00e1stico, da Rede Globo, estreou a s\u00e9rie \u201c\u00c9 bom pra qu\u00ea?\u201d, apresentada pelo m\u00e9dico Drauzio Varela, que j\u00e1 comandou outras produ\u00e7\u00f5es na \u00e1rea de sa\u00fade exibidas pelo programa. 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