{"id":482,"date":"2010-09-30T14:55:47","date_gmt":"2010-09-30T17:55:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www2.faac.unesp.br\/blog\/obsmidia\/?p=482"},"modified":"2010-09-30T14:55:47","modified_gmt":"2010-09-30T17:55:47","slug":"a-invisibilidade-de-morar-na-rua-em-ipanema","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.faac.unesp.br\/blog\/obsmidia\/2010\/09\/30\/a-invisibilidade-de-morar-na-rua-em-ipanema\/","title":{"rendered":"A invisibilidade de morar na rua em Ipanema"},"content":{"rendered":"<p><strong><span style=\"color: #000000\">Ta\u00eds Capelini<\/span><\/strong><\/p>\n<pre><span style=\"color: #000000\">\u00a0<\/span><\/pre>\n<p><span style=\"color: #000000\">\u00c0s v\u00e9speras do in\u00edcio da Copa do Mundo 2010, a revista Piau\u00ed trouxe como tema central de sua edi\u00e7\u00e3o uma situa\u00e7\u00e3o que in\u00fameras vezes \u00e9 considerada \u201cinvis\u00edvel aos olhos\u201d: a condi\u00e7\u00e3o de quem vive nas ruas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">A <a href=\"http:\/\/www.revistapiaui.com.br\/edicao_44\/artigo_1316\/Morar_na_rua_em_Ipanema.aspx\">reportagem<\/a> \u201cMorar na rua em Ipanema\u201d, de Paula Scarpin, procura ressaltar quem s\u00e3o os mendigos que habitam um dos bairros mais ricos do Brasil e como o poder p\u00fablico se relaciona com eles.\u00a0 O resultado \u00e9 interessant\u00edssimo, pois traz relatos dos pr\u00f3prios moradores de rua do Rio de Janeiro, de assistentes sociais e do prefeito da cidade, Eduardo Paes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Desses depoimentos, emerge uma quest\u00e3o de import\u00e2ncia a respeito de uma sociedade que, em diversos momentos, enxerga o \u201coutro\u201d como sin\u00f4nimo de \u201csujeira\u201d e \u201cimpureza\u201d e, por isso, pass\u00edvel de \u201cdescarte\u201d. Ou seja, o problema de uma sociedade pautada em conceitos de \u201cordem\u201d, \u201climpeza\u201d e \u201cbeleza\u201d, os quais justificam a exclus\u00e3o daqueles que n\u00e3o se enquadram nesses pressupostos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\"> Em virtude dessa demanda \u201dordenadora\u201d ou, nos termos de Max Weber, dessa \u201chigieniza\u00e7\u00e3o social\u201d surgem a\u00e7\u00f5es restritivas que estimulam o aumento dos preconceitos e das inseguran\u00e7as sociais. \u00c9 o caso do Choque de Ordem posto em pr\u00e1tica desde o in\u00edcio de 2009 pelo atual prefeito do Rio. Essa pol\u00edtica sob as promessas de \u201climpeza urbana\u201d faz com que, entre outras medidas, os indiv\u00edduos considerados desagrad\u00e1veis sejam impedidos de ocupar os espa\u00e7os p\u00fablicos por meio de a\u00e7\u00f5es coercivas, ou ainda, que sejam descolados para lugares distantes dos grandes centros urbanos, longe dos olhos dos cidad\u00e3os mais abastados.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\"> De acordo com a mat\u00e9ria, uma das atitudes tomadas para isso foi a tentativa de alojar os moradores de rua em abrigos, os quais nem sempre t\u00eam estrutura ou capacidade suficiente para abrig\u00e1-los: \u201cna ala feminina, s\u00f3 as gr\u00e1vidas, as idosas e as com problemas psiqui\u00e1tricos tinham uma cama garantida. Numa noite, em uma opera\u00e7\u00e3o com tr\u00eas \u00f4nibus, o Choque de Ordem recolheu 130 mendigos em Copacabana. N\u00e3o havia cama para nenhum deles no albergue da Pra\u00e7a da Bandeira\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">De acordo com o depoimento de um ex-funcion\u00e1rio do abrigo, o prefeito Eduardo Paes, ao passar pela frente do albergue da Pra\u00e7a da Bandeira, ficou assustado com a quantidade de mendigos do lado de fora e &#8220;no dia seguinte, o Choque de Ordem j\u00e1 levava as pessoas para o abrigo Stella Maris, na Ilha do Governador\u201d. Segundo os dados da mat\u00e9ria, \u201co Stella Maris fica perto do aeroporto do Gale\u00e3o, a 24 quil\u00f4metros de Ipanema. O pr\u00e9dio est\u00e1 a uma quadra da subida do Morro do Barbante, h\u00e1 anos controlado por mil\u00edcias, numa \u00e1rea com pouco tr\u00e2nsito de pessoas e carros\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Outro dado preocupante diz respeito ao depoimento dado em 1997 pelo secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a do Rio na \u00e9poca, o general Nilton Cerqueira, que afirmou que &#8220;s\u00f3 com atos violentos poder\u00edamos livrar a cidade de mendigos&#8221;. No ano posterior, o ex-prefeito Cesar Maia teria dito que usaria desinfetante (creolina) como meio de tirar os mendigos das ruas da cidade. O composto qu\u00edmico teria sido fato utilizado em alguns pontos onde a concentra\u00e7\u00e3o de moradores de rua era mais expressiva, a aplica\u00e7\u00e3o teria sido suspensa diante dos protestos da oposi\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">A prefeitura atual tamb\u00e9m tomou atitudes no sentido de repelir os mendigos. Uma delas foi a fixa\u00e7\u00e3o de pedras de concreto pontiagudas embaixo de todos os viadutos da avenida Presidente Vargas, ao longo de t\u00faneis acerca do Samb\u00f3dromo e na pra\u00e7a Carlo del Prete, em Laranjeiras. No centro da cidade, foram colocadas estruturas de ferro nos bancos da Pra\u00e7a da Cruz Vermelha com o intuito de impedir que as pessoas deitem sobre eles.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Sobre esse assunto, o defensor p\u00fablico do Estado Leonardo Rosa Melo, em depoimento \u00e0 reportagem, afirma que atitudes como essas \u201cs\u00e3o medidas discriminat\u00f3rias travestidas de disciplinamento do espa\u00e7o p\u00fablico\u201d e acrescenta em ultima inst\u00e2ncia que essa &#8220;\u00e9 uma pol\u00edtica belicista de coa\u00e7\u00e3o da pobreza&#8221;.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\"> \u00c9 not\u00f3rio o fato de que as tentativas de \u201climpeza\u201d da sociedade acarretam na repulsa aos indiv\u00edduos que n\u00e3o se encaixam nos padr\u00f5es sociais dominantes. Dessa forma, enquanto as interven\u00e7\u00f5es da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica voltam-se para a prote\u00e7\u00e3o de uma camada da sociedade, s\u00e3o, ao mesmo tempo, totalmente omissas com as demais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">N\u00f3s, como cidad\u00e3os e seres humanos, n\u00e3o podemos tomar parte desse tipo de atitude e aceitar como normal a subjuga\u00e7\u00e3o e desumaniza\u00e7\u00e3o do \u201coutro\u201d, que em situa\u00e7\u00f5es extremas de descaso alheio torna-se \u201cinvis\u00edvel\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">A quest\u00e3o, como bem colocou o assistente social Marcelo Jaccoud, \u00e9: \u201cestamos fazendo isso tudo para quem? Para a pessoa que est\u00e1 na cal\u00e7ada ou para quem mora no pr\u00e9dio em frente \u00e0<em> <\/em>cal\u00e7ada? Na l\u00f3gica da assist\u00eancia social, quem deveria ser o foco principal do trabalho \u00e9 o morador de rua\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\"><br \/>\n<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ta\u00eds Capelini \u00a0 \u00c0s v\u00e9speras do in\u00edcio da Copa do Mundo 2010, a revista Piau\u00ed trouxe como tema central de sua edi\u00e7\u00e3o uma situa\u00e7\u00e3o que in\u00fameras vezes \u00e9 considerada \u201cinvis\u00edvel aos olhos\u201d: a condi\u00e7\u00e3o de quem vive nas ruas. 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