{"id":447,"date":"2010-08-30T20:31:28","date_gmt":"2010-08-30T23:31:28","guid":{"rendered":"http:\/\/www2.faac.unesp.br\/blog\/obsmidia\/?p=447"},"modified":"2010-08-30T20:46:42","modified_gmt":"2010-08-30T23:46:42","slug":"a-construcao-do-heroi-na-revista-veja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.faac.unesp.br\/blog\/obsmidia\/2010\/08\/30\/a-construcao-do-heroi-na-revista-veja\/","title":{"rendered":"A constru\u00e7\u00e3o do her\u00f3i na revista Veja"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #000000\"><strong>Maria Carolina Silva Rocha Vieira<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\"><br \/>\n<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\"><strong><br \/>\n<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Atualmente, a revista <em>Veja<\/em> tem despertado o interesse de diversos pesquisadores, devido \u00e0 sua capacidade de produzir sentidos e formar opini\u00f5es, com textos carregados de informa\u00e7\u00e3o, por\u00e9m tamb\u00e9m fortemente permeados pela opini\u00e3o. O jornalismo praticado pela revista, muitas vezes, assume uma postura capaz de ditar normas para o leitor, possuindo certa autonomia para determinar aspectos da vida particular do indiv\u00edduo e trazendo vis\u00f5es pr\u00f3prias dos fatos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Na edi\u00e7\u00e3o 2157, publicada em 24 de mar\u00e7o de 2010, a reportagem de capa dedica-se a abordar, a partir do fato concreto do assassinato do cartunista Glauco e seu filho por Carlos Eduardo Sundfeld Nunes (o Cadu), os efeitos do ch\u00e1 servido nos cultos do Santo Daime, seita que tanto Glauco quanto Carlos Eduardo freq\u00fcentavam. A an\u00e1lise mais profunda da reportagem refere-se ao levantamento de dados mais detalhados sobre a vida de Carlos Eduardo e de Glauco, principalmente no que diz respeito ao envolvimento de ambos com a comunidade C\u00e9u de Maria \u2013 igreja fundada pelo cartunista; aos eventos ocorridos ap\u00f3s o crime; ao hist\u00f3rico da evolu\u00e7\u00e3o do culto ao Santo Daime; \u00e0s explica\u00e7\u00f5es sobre as subst\u00e2ncias que comp\u00f5em o ch\u00e1 \u201calucin\u00f3geno\u201d servido nos rituais e sobre o perigo de sua combina\u00e7\u00e3o com outras drogas; e uma entrevista com o pai de Carlos Eduardo, o comerciante Carlos Grecchi.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Nota-se que <em>Veja<\/em> tomou uma posi\u00e7\u00e3o perante o caso do assassinato de Glauco: ela n\u00e3o culpa Carlos Eduardo por seus atos, j\u00e1 que, emocionalmente inst\u00e1vel, ele foi levado a experimentar o Daime pela pr\u00f3pria v\u00edtima (deixa-se claro que a inten\u00e7\u00e3o de Glauco era ajud\u00e1-lo, por\u00e9m o cartunista n\u00e3o foi bem-sucedido). S\u00e3o levantados diversos argumentos que enfatizam a a\u00e7\u00e3o alucin\u00f3gena do ch\u00e1 ministrado nos cultos do Santo Daime \u2013 agravada se misturada com outras drogas \u2013 o que teria ocasionado o crime.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Para construir essa vers\u00e3o, a reportagem utiliza-se de diversos recursos, a come\u00e7ar pela capa: a chamada \u201cO psic\u00f3tico e o Daime\u201d, em conjunto com a linha fina \u201cAt\u00e9 que ponto se justifica a toler\u00e2ncia com uma droga alucin\u00f3gena usada em rituais de uma seita?\u201d j\u00e1 d\u00e3o a entender que a discuss\u00e3o levantada pela reportagem n\u00e3o \u00e9 sobre a culpa ou n\u00e3o de Carlos Eduardo pelo assassinato, e sim sobre at\u00e9 que ponto o crime foi conseq\u00fc\u00eancia do uso do ch\u00e1 do Daime por uma pessoa emocionalmente inst\u00e1vel. Percebe-se que Carlos Eduardo \u00e9 chamado de psic\u00f3tico e n\u00e3o de assassino.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">A linha fina do corpo do texto tamb\u00e9m refor\u00e7a essa id\u00e9ia: \u201cTomar o ch\u00e1 alucin\u00f3geno da seita Santo Daime quando se tem um transtorno ps\u00edquico, afirmam especialistas, \u00e9 o mesmo que jogar gasolina sobre um inc\u00eandio. Tudo indica que esse foi o caso de Cadu, o assassino do cartunista Glauco e seu filho Raoni\u201d. Nota-se, tamb\u00e9m, que o ch\u00e1 ministrado nos cultos do Santo Daime, denominado oficialmente de ayahuasca, \u00e9 a todo o momento chamado de alucin\u00f3geno, inclusive em dois quadros de t\u00edtulos \u201cAlucin\u00f3geno legalizado\u201d e \u201cMistura Perigosa\u201d, que abordam os riscos de se misturar bebida com outras drogas. Os rituais do Santo Daime s\u00e3o chamados de seita e n\u00e3o de culto, o que confere um tom pejorativo \u00e0 religi\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Alguns outros trechos e termos utilizados repetidamente confirmam a posi\u00e7\u00e3o adotada pela revista: Carlos Eduardo \u00e9 tratado como \u201cassassino confesso\u201d, o que, neste caso, confere-lhe uma imagem de submisso e conformado (o que n\u00e3o condiz com a realidade, pois ele tentou fugir das autoridades, como \u00e9 descrito no pr\u00f3prio texto da mat\u00e9ria); a fala \u201ccomo fazem hoje em dia 90% dos jovens\u201d de Carlos Nunes Filho, av\u00f4 de Cadu,\u00e9 usada para justificar o uso de maconha pelo neto; e ainda, especificamente sobre o ch\u00e1 ayahuasca, a reportagem deixa clara sua posi\u00e7\u00e3o em classific\u00e1-lo como alucin\u00f3geno, alegando que uma de suas subst\u00e2ncias \u00e9 proibida \u201cem quase todo o mundo\u201d, encerrando com uma compara\u00e7\u00e3o a tentativa de legaliza\u00e7\u00e3o da maconha para usos terap\u00eauticos, sendo assim \u201cgrandes as chances de outras drogas entrarem para o rol de \u2018sagradas\u2019\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Enfim, focalizando o personagem de Carlos Eduardo e sua rela\u00e7\u00e3o com o Santo Daime, a reportagem, em suas linhas gerais, isenta o assassino confesso do cartunista Glauco e seu filho Raoni da responsabilidade de seus atos. A revista ainda salienta a a\u00e7\u00e3o alucin\u00f3gena do ch\u00e1 ministrado nos cultos do Daime e as conseq\u00fc\u00eancias de sua combina\u00e7\u00e3o com outras drogas alucin\u00f3genas (tais como a maconha, consumida por Cadu) ou com problemas psicol\u00f3gicos. Para refor\u00e7ar a id\u00e9ia defendida, a reportagem constr\u00f3i um texto narrativo que d\u00e1 argumentos, conceitos e classifica\u00e7\u00f5es feitos \u201csob medida\u201d (tal como referir-se ao ch\u00e1 sempre como \u201calucin\u00f3geno\u201d, mesmo sendo legalizado no Brasil) e o completa com imagens, com destaque \u00e0s fotos de Carlos Eduardo. Portanto, de acordo com a abordagem dada a determinado fato, pode-se \u2013 e foi o que fez a revista <em>Veja<\/em> neste caso \u2013 transformar um assassino em \u201cher\u00f3i\u201d, isentando-o da culpa de seus atos e relegando tal responsabilidade a terceiros, nesse caso, os membros da seita do Santo Daime.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria Carolina Silva Rocha Vieira Atualmente, a revista Veja tem despertado o interesse de diversos pesquisadores, devido \u00e0 sua capacidade de produzir sentidos e formar opini\u00f5es, com textos carregados de informa\u00e7\u00e3o, por\u00e9m tamb\u00e9m fortemente permeados pela opini\u00e3o. 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