{"id":434,"date":"2010-08-30T20:22:54","date_gmt":"2010-08-30T23:22:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www2.faac.unesp.br\/blog\/obsmidia\/?p=434"},"modified":"2010-08-30T20:52:02","modified_gmt":"2010-08-30T23:52:02","slug":"jornalismo-italiano-enfrenta-dias-dificeis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.faac.unesp.br\/blog\/obsmidia\/2010\/08\/30\/jornalismo-italiano-enfrenta-dias-dificeis\/","title":{"rendered":"Jornalismo enfrenta dias dif\u00edceis na It\u00e1lia"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #000000\"><strong>Juliana Santos<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\"><strong><br \/>\n<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\"><strong> <\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">N\u00e3o \u00e9 novidade alguma que a It\u00e1lia \u00e9 um territ\u00f3rio onde mafiosos praticaram e praticam atos que contrariam a lei. No entanto, atualmente esses atos est\u00e3o encontrando respaldo para serem encobertos pela lei, possibilitados por um governo que prioriza interesses pessoais ao inv\u00e9s dos p\u00fablicos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">A pol\u00edtica italiana encontra-se em tal situa\u00e7\u00e3o que as inst\u00e2ncias democr\u00e1ticas est\u00e3o sendo impedidas de exercer plenamente sua fun\u00e7\u00e3o junto \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. Atrav\u00e9s da m\u00e1 administra\u00e7\u00e3o dos meios legais, o governo atinge setores como o jornalismo e interfere na liberdade da informa\u00e7\u00e3o divulgada.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Na edi\u00e7\u00e3o 602 da revista \u201cCarta Capital\u201d de 30 de junho de 2010, a <a href=\"http:\/\/www.cartacapital.com.br\/internacional\/o-sultao-e-seu-sultanato\">mat\u00e9ria<\/a> intitulada \u201cO sult\u00e3o e seu sultanato\u201d, do jornalista Mino Carta, apresenta um panorama de como ao longo de anos a pol\u00edtica italiana chegou \u00e0 condi\u00e7\u00e3o atual.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">A mat\u00e9ria analisa a rec\u00e9m-aprovada \u201clei-morda\u00e7a\u201d, um projeto do Ministro da Justi\u00e7a que pro\u00edbe, at\u00e9 o in\u00edcio de um processo judicial, que sejam divulgados intercepta\u00e7\u00f5es telef\u00f4nicas e grampos telef\u00f4nicos solicitados pela justi\u00e7a. O n\u00e3o cumprimento da lei pelos jornais pode acarretar multas, e o jornalista que desrespeitar a norma pode chegar \u00e0 pris\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">As proibi\u00e7\u00f5es da justi\u00e7a da It\u00e1lia ao jornalismo v\u00e3o mais longe. Fica proibida tamb\u00e9m a publica\u00e7\u00e3o do texto integral das atas de investiga\u00e7\u00e3o at\u00e9 o t\u00e9rmino da audi\u00eancia preliminar, as televis\u00f5es est\u00e3o impedidas de focalizar os magistrados no interior do Pal\u00e1cio de Justi\u00e7a, e os procuradores n\u00e3o podem prestar declara\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">A lei ainda \u00e9 mais sugestiva quanto \u00e0s inten\u00e7\u00f5es do governo, no ponto referente de no caso de crime organizado, as intercepta\u00e7\u00f5es telef\u00f4nicas s\u00f3 poder\u00e3o acontecer no m\u00e1ximo de 75 dias.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">No entanto a mat\u00e9ria mostra que a lei possui v\u00e1rios pontos inconstitucionais, como \u00e9 ressaltado pelo Presidente da C\u00e2mara Gianfranco Finni, o qual defende que a aprova\u00e7\u00e3o da medida na C\u00e2mara deve ser precedida por um debate de medidas econ\u00f4micas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Ao revelar como essa lei poderia ter acobertado outros casos que vieram a conhecimento do p\u00fablico, a mat\u00e9ria mostra que a inten\u00e7\u00e3o do governo da It\u00e1lia est\u00e1 mais pr\u00f3xima de uma auto prote\u00e7\u00e3o do que a prote\u00e7\u00e3o da privacidade do cidad\u00e3o, como bem \u00e9 destacado nas palavras escritas pelo autor do best-seller \u201cGomorra\u201d, Roberto Saviano: \u201cA lei-morda\u00e7a n\u00e3o defende a privacidade do cidad\u00e3o, defende \u00e9 a do poder\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Mas nem tudo est\u00e1 perdido. Mino Carta destaca que a lei-morda\u00e7a foi aprovada pela maioria direitista do Senado, com o apoio e apelo do primeiro-ministro, Silvio Berlusconi, o qual n\u00e3o enfrentaria uma situa\u00e7\u00e3o favor\u00e1vel. O premi\u00ea, que teria adquirido uma imagem negativa em todo o mundo em raz\u00e3o de diversas not\u00edcias sobre seus h\u00e1bitos extravagantes, tamb\u00e9m enfrentaria problemas dentro da coliga\u00e7\u00e3o governista e com o Presidente da Rep\u00fablica, Giorgio Napolitano: \u201cSim, Berlusconi clama constantemente contra uma Constitui\u00e7\u00e3o que, diz ele, lhe ata as m\u00e3os, e at\u00e9 amea\u00e7a reescrev\u00ea-la, mas nada disso facilita as rela\u00e7\u00f5es entre o premier e o presidente da Rep\u00fablica, a quem compete assinar a lei antes da promulga\u00e7\u00e3o. (&#8230;) \u00c9 direito que a Constitui\u00e7\u00e3o lhe confere. Que far\u00e1 Berlusconi? Quem sabe se prepare a enfrentar um presidente que n\u00e3o \u00e9 a rainha da Inglaterra\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">A proximidade entre o crime organizado e o governo \u00e9 exemplificada na mat\u00e9ria, com a compara\u00e7\u00e3o feita pelo jornalista entre um sult\u00e3o e seu sultanato, e Berlusconi e os mafiosos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Chegando mais ao fundo, Mino Carta cita um epis\u00f3dio em que o procurador nacional antim\u00e1fia, Piero Grassi, foi questionado por que a onda de atentados mafiosos ocorridos at\u00e9 meados de 1993 cessou repentinamente e lan\u00e7ou a hip\u00f3tese de \u201cque se pretendesse criar um clima capaz de favorecer o nascimento de uma nova \u201centidade pol\u00edtica\u201d\u201d.\u00a0O que \u00e9 refor\u00e7ado na mat\u00e9ria pelas palavras do ex-presidente da Rep\u00fablica Carlo Azeglio Ciampi, que acredita na for\u00e7a pol\u00edtica criada para aproximar governo e m\u00e1fia, no que ele chama de \u201ctodo um regime de rec\u00edprocos favores\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Aproximando-se da raiz da pol\u00edtica que domina a \u201cRep\u00fablica da It\u00e1lia\u201d, a mat\u00e9ria volta ao ano de 1981, quando foi descoberta a loja ma\u00e7\u00f4nica Propaganda Due, conhecida como P2. Segundo a mat\u00e9ria, a loja secreta tinha o objetivo de subverter o modelo pol\u00edtico em vigor e pretendia assumir o poder conforme um \u201cplano de renascimento\u201d que colocaria seus membros no comando do governo. Revelando os planos que a loja ma\u00e7\u00f4nica pretendia colocar em pr\u00e1tica quando alcan\u00e7asse o poder, o jornalista chega \u00e0 converg\u00eancia entre esses e os pontos do programa de governo de Silvio Berlusconi, o qual n\u00e3o surpreendentemente \u00e9 revelado como membro da P2. Como afirma a mat\u00e9ria, na \u00e9poca, a P2a ssimarecida na matnco Finni, itucionais,que a ados. at to a mal. pololpi \u00a0possu\u00eda mais de 2 mil filiados, entre eles, parlamentares, ministros e outras autoridades do governo atual.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">E a complexidade do problema vai se apresentando mais claramente. A hist\u00f3ria narrada pela mat\u00e9ria come\u00e7a a aproximar-se de fatos de um filme, com direito a m\u00e1fia, para\u00edsos fiscais e assassinatos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Como a mat\u00e9ria nos coloca, a imprensa italiana tenta expor seu protesto contra a lei, como o jornal <em>La Repubblica<\/em>, que um dia ap\u00f3s a aprova\u00e7\u00e3o do projeto no Senado trouxe sua capa quase em branco, somente com um bilhete aos leitores com a seguinte mensagem: \u201cA lei-morda\u00e7a nega aos cidad\u00e3os o direito de serem informados\u201d. Na pr\u00f3xima p\u00e1gina o diretor do peri\u00f3dico exp\u00f5e considerar a lei \u201cuma viol\u00eancia no circuito democr\u00e1tico\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Infelizmente o caso da It\u00e1lia n\u00e3o \u00e9 isolado. Recentemente em nosso pa\u00eds tivemos o epis\u00f3dio de Jos\u00e9 Sarney e a censura ao jornal <em>O Estado de S. Paulo<\/em>. No ano passado, o jornal foi proibido de divulgar informa\u00e7\u00f5es sobre a opera\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Federal que investigava a liga\u00e7\u00e3o do senador com atos secretos. Os arquivos de \u00e1udio que provavam o envolvimento de Jos\u00e9 Sarney com os atos secretos foram proibidos de serem veiculados, e a censura ao jornal e ao seu portal de not\u00edcias na internet dura at\u00e9 hoje.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Finalmente, Mino Carta ressalta como o governo italiano e o sultanato criado por ele denigre a imagem de um pa\u00eds com mais de 3 mil anos de hist\u00f3ria, o qual foi ber\u00e7o de v\u00e1rias povos europeus e \u00e9 considerado uma na\u00e7\u00e3o desenvolvida. A mat\u00e9ria apresenta de forma completa um assunto que normalmente n\u00e3o encontramos na m\u00eddia, mas que possui import\u00e2ncia sobre o destino do jornalismo nas democracias atuais.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Juliana Santos N\u00e3o \u00e9 novidade alguma que a It\u00e1lia \u00e9 um territ\u00f3rio onde mafiosos praticaram e praticam atos que contrariam a lei. No entanto, atualmente esses atos est\u00e3o encontrando respaldo para serem encobertos pela lei, possibilitados por um governo que prioriza interesses pessoais ao inv\u00e9s dos p\u00fablicos. 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