{"id":331,"date":"2010-06-29T14:00:43","date_gmt":"2010-06-29T17:00:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www2.faac.unesp.br\/blog\/obsmidia\/?p=331"},"modified":"2010-06-29T16:45:03","modified_gmt":"2010-06-29T19:45:03","slug":"o-chavismo-e-a-venezuela-no-discurso-da-folha-de-sao-paulo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.faac.unesp.br\/blog\/obsmidia\/2010\/06\/29\/o-chavismo-e-a-venezuela-no-discurso-da-folha-de-sao-paulo\/","title":{"rendered":"O chavismo e a Venezuela no discurso da Folha de S\u00e3o Paulo"},"content":{"rendered":"<p><strong><span style=\"color: #000000\">Leo Ju\u00e1rez Liberatori<\/span><\/strong><\/p>\n<address><span style=\"color: #000000\"><br \/>\n<\/span><\/address>\n<p><span style=\"color: #000000\"><strong><span style=\"text-decoration: underline\"> <\/span><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Este texto tem a finalidade de fazer uma an\u00e1lise sob o tratamento dado \u00e0 Venezuela e Hugo Ch\u00e1vez pelo jornal Folha de S\u00e3o Paulo, tendo como recorte o m\u00eas de abril de 2010.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Em termos gerais, pode-se observar que a imagem que a Folha tenta construir sobre Ch\u00e1vez e os processos pol\u00edticos que acontecem na Venezuela se encontra em sintonia com a imagem defendida pelos grandes meios da comunica\u00e7\u00e3o massiva, e n\u00e3o somente os do Brasil, mas tamb\u00e9m os grandes grupos midi\u00e1ticos do resto do mundo que tentam representar a Venezuela como pa\u00eds antidemocr\u00e1tico, prepotente e corrupto; elaborando, portanto, uma imagem negativa de Venezuela.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Durante o m\u00eas do abril houve 14 mat\u00e9rias sobre Venezuela e o chavismo e, em todas, a t\u00f4nica foi a mesma: desprestigiar por qualquer meio poss\u00edvel as pol\u00edticas do presidente Ch\u00e1vez e da Venezuela. Qualquer fato acontecido em Venezuela tornou-se, sistematicamente, um \u00e1libi para deslegitimar a figura de Ch\u00e1vez.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Nossa an\u00e1lise n\u00e3o pretende defender o Chavismo. Sem d\u00favida, como qualquer governante, o presidente venezuelano desperta controv\u00e9rsias. Apenas destacamos que a Folha se mostra politicamente opositora ao regime de Ch\u00e1vez, mas n\u00e3o de uma forma expl\u00edcita. Veremos como os argumentos utilizados pelo jornal podem ser refutados atrav\u00e9s de uma an\u00e1lise das <strong>estrat\u00e9gias discursivas<\/strong> empregadas por suas mat\u00e9rias.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\"><strong>Estrat\u00e9gias discursivas<a href=\"#_ftn1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">A Folha utiliza diferentes estrat\u00e9gias discursivas para que seus argumentos passem despercebidos aos olhos do leitor.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">A primeira delas \u00e9 <strong>fazer uma naturaliza\u00e7\u00e3o<\/strong> dos fatos aos olhos do leitor, isto \u00e9, acostumar o leitor \u00e0 id\u00e9ia de que, sempre que se fale de Venezuela e de Ch\u00e1vez, ser\u00e1 para mostrar algo negativo e, com base nesta caracteriza\u00e7\u00e3o, a pessoa de Ch\u00e1vez e seu governo se alinham dentro dessa \u00f3tica negativista. De fato, uma forma adequada de se atingir esse objetivo \u00e9 atrav\u00e9s da insist\u00eancia, ou seja, apresentar a tem\u00e1tica em distintas mat\u00e9rias sempre desde uma mesma perspectiva.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Nas mat\u00e9rias analisadas podem-se achar duas estrat\u00e9gias que s\u00e3o aplicadas juntas: uma \u00e9 da <strong>objetividade<\/strong> e a outra \u00e9 da <strong>legitimidade da palavra autorizada<\/strong>. A Folha apela ao uso de entrevistas de personalidades que possuem suposta autoridade para opinar a respeito das tem\u00e1ticas abordadas (profissionais, intelectuais etc.). O objetivo destas estrat\u00e9gias \u00e9 duplo: por um lado, o jornal, ao apresentar seu pr\u00f3prio discurso como \u201coutra voz\u201d, consegue manter a neutralidade respeito da tem\u00e1tica abordada; por outro lado, consegue dar mais for\u00e7a a seu argumento, uma vez que a fonte supostamente possui conhecimento sobre a tem\u00e1tica abordada.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Um exemplo est\u00e1 em mat\u00e9ria de 18 de abril de 2010, na qual o jornal entrevista o antrop\u00f3logo e historiador venezuelano Fernando Coronil, que opina sobre a situa\u00e7\u00e3o da Venezuela, o chavismo e o ressurgimento da figura de Bol\u00edvar no momento do bicenten\u00e1rio da na\u00e7\u00e3o. \u201cEssa reitera\u00e7\u00e3o de her\u00f3is do passado (<em>Bol\u00edvar<\/em>) ocorre porque h\u00e1 crise de futuro\u201d, diz. \u201cEste \u00e9 um momento dif\u00edcil para o chavismo. Todo o encanto tem de se basear em conquistas, n\u00e3o s\u00f3 em palavras. A crise energ\u00e9tica a infla\u00e7\u00e3o, a inseguran\u00e7a, a crise produtiva e a corrup\u00e7\u00e3o minam seu projeto. Contra o desencanto, Ch\u00e1vez prop\u00f5e intensificar a polariza\u00e7\u00e3o entre revolucion\u00e1rios e \u2018burgueses pitiyanquis\u2019. A \u00fanica estrat\u00e9gia que pode ter \u00eaxito agora \u00e9 o encanto da efici\u00eancia\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Tamb\u00e9m podemos achar a estrat\u00e9gia da <strong>objetividade<\/strong> associada j\u00e1 n\u00e3o somente \u00e0 palavra autorizada, mas tamb\u00e9m \u00e0 <strong>palavra da maioria<\/strong>. Por exemplo, com diferentes dados estat\u00edsticos (portanto tamb\u00e9m <em>objetivos<\/em>) que certifiquem o descontentamento com o governo. \u201cSeu governo\u00a0 (&#8230;) atravessa momento delicado. A popularidade do presidente caiu (44%, segundo instituto Datan\u00e1lisis), efeito do desgaste da crise energ\u00e9tica e da infla\u00e7\u00e3o\u201d, segundo mat\u00e9ria de 20 de abril de 2010. \u201cOs \u2018twitteiros\u2019 anti-Ch\u00e1vez conseguiram emplacar, em fevereiro, o marcador freevenezuela como o quarto mais usado no mundo\u201d, de acordo com mat\u00e9ria de 17 de abril de 2010.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Outra t\u00e9cnica empregada pelo jornal, esta mais expl\u00edcita, \u00e9 a <strong>utiliza\u00e7\u00e3o de adjetiva\u00e7\u00f5es<\/strong> que tentam desqualificar certas a\u00e7\u00f5es do governo venezuelano, cmoo neste exemplo de 18 de abril de 2010: \u201c(&#8230;) tamb\u00e9m est\u00e1 prevista a inaugura\u00e7\u00e3o de um <strong>controverso<\/strong> busto de Fidel Castro\u201d. Ou neste, de 20 de abril de 2010: (&#8230;) desfilou a <strong>controversa<\/strong> Mil\u00edcia Nacional Bolivariana, composta por militares da reserva e civis treinados pelo governo \u2013de estudantes e funcion\u00e1rios p\u00fablicos a camponeses\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Outra forma de deslegitimar o outro \u00e9 atrav\u00e9s do <strong>medo<\/strong>, apresentando-o como perigoso ou ao menos suspeito, como neste exemplo de 6 de abril de 2010. \u201cOs EUA expressaram sua preocupa\u00e7\u00e3o quanto \u00e0 venda de armas para Venezuela. Ontem, um porta-voz do Departamento do Estado disse que o an\u00fancio da R\u00fassia pressiona os EUA a analisarem \u2018quais necessidades de defesa leg\u00edtimas a Venezuela tem\u2019. \u2018Se a Venezuela vai aumentar sua capacidade militar, certamente n\u00e3o queremos ver esse equipamento migrar para outras partes do hemisf\u00e9rio\u2019. Embora n\u00e3o tenham sido diretos desta vez, os EUA j\u00e1 acusaram no passado Ch\u00e1vez de armar a guerrilha das Farc\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Por \u00faltimo, podemos mencionar a estrat\u00e9gia de <strong>desqualificar as vis\u00f5es do mundo<\/strong> que o outro prop\u00f5e (neste caso o chavismo), na tentativa de reconhec\u00ea-las como ileg\u00edtimas e qualific\u00e1-las como meras <em>inten\u00e7\u00f5es do governo<\/em> com a finalidade de criar uma falsa realidade. \u201cMeios de comunica\u00e7\u00e3o estatais e principalmente Ch\u00e1vez se esmeram para fixar a leitura oficial da efem\u00e9ride: trata-se do come\u00e7o da luta pela soberania da Venezuela que s\u00f3 est\u00e1 sendo completada agora, pela \u2018Revolu\u00e7\u00e3o Bolivariana\u2019\u201d (Folha, 18-04-2010). \u201cCh\u00e1vez se esmera para fixar a id\u00e9ia de que a comemora\u00e7\u00e3o do bicenten\u00e1rio representa a retomada das id\u00e9ias do her\u00f3i da independ\u00eancia Sim\u00f3n Bol\u00edvar\u201d (Folha, 20-04-2010)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Tamb\u00e9m se pode desqualificar a <strong>vis\u00e3o do mundo<\/strong> que o chavismo prop\u00f5e, apresentando-a como uma contradi\u00e7\u00e3o \u00e0 situa\u00e7\u00e3o que o pa\u00eds atravessa. \u201cEm meio da crise energ\u00e9tica e infla\u00e7\u00e3o, Ch\u00e1vez prepara grandiosa festa de anivers\u00e1rio da independ\u00eancia e intensifica liga\u00e7\u00e3o com Bol\u00edvar\u201d, segundo mat\u00e9ria de 18 de abril de 2010.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\"><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">De uma perspectiva s\u00f3cio-semi\u00f3tica, pode-se afirmar que o homem d\u00e1 sentido \u00e0 realidade: esta n\u00e3o \u00e9 indiferente para ele. O sentido que o homem atribui \u00e0 realidade est\u00e1 sustentado no discurso. Segundo Eliseo Ver\u00f3n, <em>\u201co discurso faz uma referencia a um conjunto da imagem que \u00e9 produzida coletivamente e que determina uma vis\u00e3o do mundo. \u00c9 a base para que a realidade tenha sentido para n\u00f3s\u201d<\/em> (Ver\u00f3n, 1997)<a href=\"#_ftn2\">[2]<\/a>.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">A apropria\u00e7\u00e3o do sentido da realidade n\u00e3o \u00e9 determinada nem arbitr\u00e1ria, nem se manifesta pacificamente; existem diferentes atores que lutam entre si para impor a vis\u00e3o do mundo que cada um deles considera leg\u00edtima. Dentro dessas lutas, os meios de comunica\u00e7\u00e3o ocupam um lugar central, pois \u00e9 atrav\u00e9s deles que os distintos agentes sociais expressam e conseguem legitimar estas vis\u00f5es. Portanto, os meios conformam um campo social (em termos bourdianos), do qual eles se apropriam para atingir seus objetivos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">\u00c9 por isso que n\u00e3o \u00e9 nem arbitr\u00e1rio nem neutro o tratamento que o jornal Folha de S. Paulo confere \u00e0 realidade pol\u00edtica da Venezuela e seu atual presidente. Sua estrat\u00e9gia representa uma tomada de posi\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica devido ao fato de que a vis\u00e3o do mundo que Ch\u00e1vez tenta colocar no espa\u00e7o discursivo \u00e9 rejeitada e combatida pela ideologia que o jornal representa.<\/span><\/p>\n<hr size=\"1\" \/><span style=\"color: #000000\"><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> Entendo por estrat\u00e9gias discursivas a aqueles mecanismos ret\u00f3rico-discursivos atrav\u00e9s dos quais um agente social da sentido \u00e0 realidade. \u00c9 assim que os agentes sociais tentam colocar num campo discursivo (neste caso, o campo constitu\u00eddo pela Folha e sua comunidade de leitores) uma vis\u00e3o do mundo que tenta ser hegem\u00f4nica e abrangente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\"><a href=\"#_ftnref2\">[2]<\/a> Ver\u00f3n, Eliseo (1997): Semiosis de lo ideol\u00f3gico y del poder. La mediatizaci\u00f3n (Cursos y conferencias). Universidad de Buenos Aires, Oficina de Publicaciones, Buenos Aires, p.11.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leo Ju\u00e1rez Liberatori Este texto tem a finalidade de fazer uma an\u00e1lise sob o tratamento dado \u00e0 Venezuela e Hugo Ch\u00e1vez pelo jornal Folha de S\u00e3o Paulo, tendo como recorte o m\u00eas de abril de 2010. 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