{"id":327,"date":"2010-06-29T14:00:01","date_gmt":"2010-06-29T17:00:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www2.faac.unesp.br\/blog\/obsmidia\/?p=327"},"modified":"2010-06-29T18:07:34","modified_gmt":"2010-06-29T21:07:34","slug":"as-marcas-da-subjetividade-no-jornal-expresso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.faac.unesp.br\/blog\/obsmidia\/2010\/06\/29\/as-marcas-da-subjetividade-no-jornal-expresso\/","title":{"rendered":"Linguagem e as marcas da subjetividade no jornal Expresso"},"content":{"rendered":"<p><strong><span style=\"color: #000000\">J\u00e9ssica de C\u00e1ssia Rossi<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\"><br \/>\n<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\"><em> <\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">\u00c9 comum pensarmos que a subjetividade \u00e9 uma capacidade existente no homem em qualquer situa\u00e7\u00e3o de sua vida<a href=\"#_ftn1\">[1]<\/a>. Pensamos que, de qualquer modo, ele pode refletir sobre si mesmo e o mundo ao seu redor. Contudo, ao conhecermos melhor o conceito de subjetividade na perspectiva da linguagem, vemos que a subjetividade \u00e9 constitu\u00edda na linguagem e pela linguagem. Por ela, o sujeito e o sentido se constroem no momento de uma enuncia\u00e7\u00e3o, determinada pelas condi\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o de um discurso. Nesse processo, o indiv\u00edduo pode assumir diversas posi\u00e7\u00f5es e adotar diferentes sentidos que imprimem marcas de subjetividade no processo enunciativo. O objetivo do nosso trabalho \u00e9 identificar as marcas de subjetividade na not\u00edcia \u201cFilhas de Bragan\u00e7a\u201d, jornal <em>Expresso, <\/em>em sua vers\u00e3o digital.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Entre as formas de express\u00e3o da subjetividade em um discurso, Brand\u00e3o (1998) nos mostra que elas podem ocorrer por meio da<strong> refer\u00eancia relativa \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de comunica\u00e7\u00e3o ou d\u00eaitica<\/strong>. Por ela, a denomina\u00e7\u00e3o de um objeto \u00e9 feita a partir dos dados particulares da situa\u00e7\u00e3o de comunica\u00e7\u00e3o. Dependendo do papel que o indiv\u00edduo exerce no processo de alocu\u00e7\u00e3o (locutor, alocut\u00e1rio e delocut\u00e1rio) como os pronomes pessoais, bem como do tempo e do espa\u00e7o da enuncia\u00e7\u00e3o. Nesse tipo de refer\u00eancia, h\u00e1 os d\u00eaiticos que s\u00e3o um conjunto de signos vazios, dispon\u00edveis a serem preenchidos na inst\u00e2ncia do discurso. J\u00e1 para Gomes (2000), a subjetividade em uma enuncia\u00e7\u00e3o pode vir \u00e0 tona por meio dos <em>shifters<\/em> que \u201cdizem respeito a palavras que funcionam como marchas nas quais se engata um falante e o mundo enquanto falado\u201d (GOMES, 2000, p. 67).\u00a0 Tanto os <em>shifters<\/em> quanto as refer\u00eancias d\u00eaiticas de Brand\u00e3o (1998) tem o mesmo significado. Entre os tipos de <em>shifters <\/em>encontramos: os de pessoa, os de escuta ou testimoniais e os de organiza\u00e7\u00e3o. Os dois \u00faltimos s\u00e3o utilizados no discurso jornal\u00edstico. Os <em>shifters<\/em> de escuta ou testimoniais s\u00e3o usados quando ao se contar um fato, menciona-se tamb\u00e9m o ato de informar e a palavra do enunciante referido, exemplos \u201cdisse\u201d e \u201csegundo entendi\u201d. J\u00e1 os <em>shifters<\/em> de organiza\u00e7\u00e3o s\u00e3o usados quando o enunciador organiza seu pr\u00f3prio discurso de modo coerente, exemplos \u201cdissemos anteriormente\u201d e \u201ctorno a repetir\u201d.\u00a0 A impress\u00e3o de marcas subjetivas na linguagem \u00e9 um tema tamb\u00e9m tratado por Kebrat-Orecchini (1980), quando ela aborda os substantivos axiol\u00f3gicos. Eles se referem a substantivos afetivos\/valorativos derivados de verbos e adjetivos como, por exemplo, \u201camor e amar\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">O preenchimento de significado de um d\u00eaitico ou <em>shifter<\/em>, por exemplo, depende das condi\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o de determinado discurso, o qual nunca \u00e9 o mesmo, pois n\u00e3o tem um significado fixo. Como afirma Possenti (2001, p. 73), \u201c(&#8230;) h\u00e1 algo que n\u00e3o est\u00e1 no que \u00e9 dito, mas na maneira de dizer, e que denuncia um ponto de vista\u201d. \u00c9 assim que se constitui a subjetividade na linguagem, ela toma corpo \u00e0 medida que os sujeitos s\u00e3o capazes de enunciar suas perspectivas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">O jornal Expresso \u00e9 um meio de comunica\u00e7\u00e3o de refer\u00eancia no contexto portugu\u00eas, junto com os jornais <em>P\u00fablico e Di\u00e1rio de Not\u00edcias<\/em>. A vers\u00e3o impressa do jornal tem periodicidade semana e h\u00e1 tamb\u00e9m uma vers\u00e3o digital. A not\u00edcia \u201cFilhas de Bragan\u00e7a\u201d, de 28\/04\/2008, publicada nas vers\u00f5es impressa e digital, relata o fato da presen\u00e7a de prostitutas brasileiras na cidade de Bragan\u00e7a em Portugal, apesar da tentativa expuls\u00e3o das mesmas em 2003 pelo movimento \u201cM\u00e3es de Bragan\u00e7a\u201d. Nesse epis\u00f3dio, algumas mulheres portuguesas denunciaram a presen\u00e7a de prostitutas em casas de alterne (locais de prostitui\u00e7\u00e3o) que seus maridos frequentavam em Bragan\u00e7a. Segundo o movimento, as \u201cmeninas brasileiras\u201d estariam desmoralizando a pequena cidade. Usamos a not\u00edcia para analisar os protagonistas do discurso e as marcas de subjetividade presentes na constru\u00e7\u00e3o enunciativa do jornal <em>Expresso<\/em>.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Nossa abordagem est\u00e1 estruturada pela identifica\u00e7\u00e3o da refer\u00eancia d\u00eaitica de pessoa (locutor, delocutorio e locut\u00e1rio), de tempo e espa\u00e7o, em quais inserimos tamb\u00e9m a identifica\u00e7\u00e3o de <em>shifters<\/em> de escuta ou testimoniais e <em>shifters<\/em> de organiza\u00e7\u00e3o, bem como os substantivos axiol\u00f3gicos:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\"><strong>1. A refer\u00eancia d\u00eaitica de pessoa <\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\"><strong>&#8211; O Locutor (Quem Fala): <\/strong>\u00e9 o jornal <em>Expresso<\/em>, o qual informa \u00e0 sociedade portuguesa sobre a presen\u00e7a de prostitutas brasileiras na cidade de Bragan\u00e7a. A inten\u00e7\u00e3o do jornal \u00e9 mostrar que, apesar do epis\u00f3dio do movimento \u201cM\u00e3es de Bragan\u00e7a\u201d ocorrido em 2003, o fen\u00f4meno continua na atualidade. O jornal <em>Expresso <\/em>exerce o papel de porta voz da sociedade portuguesa por trazer a p\u00fablico uma situa\u00e7\u00e3o que ele acompanha e denuncia. Percebemos isso em express\u00f5es como: \u201co Expresso sabe\u201d, \u201cn\u00f3s\u201d, \u201cnos mostra\u201d, \u201cperguntam-nos\u201d e \u201cpedirmos\u201d.<strong> <\/strong>A utiliza\u00e7\u00e3o do plural \u201cn\u00f3s\u201d produz uma amplifica\u00e7\u00e3o do circuito do emissor. Por essa perspectiva, o jornal tem legitimidade para investigar a situa\u00e7\u00e3o em nome do interesse p\u00fablico portugu\u00eas. <strong> <\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\"><strong>O Alocut\u00e1rio (Para quem se fala): <\/strong>\u00e9 o leitor de sua edi\u00e7\u00e3o impressa e digital (potencialmente a sociedade portuguesa em geral).\u00a0 A estrat\u00e9gia do jornal \u00e9 demonstrar que est\u00e1 cumprindo seu papel, ao denunciar a situa\u00e7\u00e3o ao leitor. Em um primeiro momento, podemos pensar a rela\u00e7\u00e3o conversacional da not\u00edcia por um \u201ceu\u201d representado pelo jornal <em>Expresso<\/em> e de um \u201ctu\u201d representado pelo leitor do jornal que n\u00e3o \u00e9 citado na not\u00edcia. Entretanto, ao analisarmos melhor a enuncia\u00e7\u00e3o do jornal, percebemos que o alocut\u00e1rio, no caso do leitor, est\u00e1 sim, indiretamente, presente no discurso em quest\u00e3o. Ele pode ser identificado na inst\u00e2ncia do locutor da enuncia\u00e7\u00e3o no momento em que o jornal <em>Expresso<\/em>, utiliza a express\u00e3o \u201cn\u00f3s\u201d e as declara\u00e7\u00f5es de representantes da sociedade portuguesa, trazendo o alocut\u00e1rio para a dimens\u00e3o da locu\u00e7\u00e3o.<strong> <\/strong>O\u00a0 uso do termo \u201cn\u00f3s\u201d pode ser entendido como\u00a0 a jun\u00e7\u00e3o do eu + voc\u00ea que inclui o leitor do jornal. Ao utilizar esse recurso, o jornal <em>Expresso<\/em> assume que est\u00e1 informando o leitor de alguma coisa porque exerce a referencialidade, confirmada pela exist\u00eancia de um \u201ctu\u201d.<strong> <\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\"><strong>&#8211; O Delocut\u00e1rio (De quem se fala): <\/strong>s\u00e3o (ex) prostitutas brasileiras na cidade de Bragan\u00e7a ou ao seu redor. O jornal <em>Expresso<\/em> descreve o ambiente em que a prostitui\u00e7\u00e3o ocorre e apresenta depoimentos de (ex) prostitutas brasileiras para confirmar a continuidade da prostitui\u00e7\u00e3o em Bragan\u00e7a.<strong> <\/strong>As declara\u00e7\u00f5es servem para confirmar a pr\u00f3pria vis\u00e3o do jornal sobre a prostitui\u00e7\u00e3o em Bragan\u00e7a. Percebemos que h\u00e1 tamb\u00e9m a presen\u00e7a de substantivos axiol\u00f3gicos como \u201csexagen\u00e1rio\u201d e \u201cimprov\u00e1vel. A riqueza de detalhes, a adjetiva\u00e7\u00e3o e os substantivos axiol\u00f3gicos expressam a posi\u00e7\u00e3o valorativa do jornal diante da situa\u00e7\u00e3o. O papel do jornal, enquanto defensor do interesse p\u00fablico portugu\u00eas, de modo objetivo, entra em conflito com seus ju\u00edzos de valores negativos em rela\u00e7\u00e3o ao fen\u00f4meno de Bragan\u00e7a.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\"><strong>2. A refer\u00eancia d\u00eaitica de espa\u00e7o: <\/strong>a dimens\u00e3o espacial \u00e9 a cidade de Bragan\u00e7a, em Portugal,\u00a0 e ao Brasil e o resto do mundo. As refer\u00eancias espaciais da not\u00edcia s\u00e3o constru\u00eddas em torno da oposi\u00e7\u00e3o polarizada dos d\u00eaiticos \u201caqui\u201d versus \u201cl\u00e1\u201d. Essa defini\u00e7\u00e3o ocorre a partir do contexto em que est\u00e1 inserido o locutor (jornal\/sociedade portuguesa), ou seja, o \u201caqui\u201d (cidade de Bragan\u00e7a, em Portugal) e o \u201cl\u00e1\u201d (Brasil e o resto do mundo).<strong> <\/strong>\u00c9 poss\u00edvel dizer que h\u00e1 um jogo entre o conhecido versus o desconhecido no mapeamento do espa\u00e7o. O que justifica a utiliza\u00e7\u00e3o de muitos termos para se referir ao \u201caqui\u201d e poucos termos para se referir ao \u201cl\u00e1\u201d.<strong> <\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\"><strong>3. A Refer\u00eancia do d\u00eaitico de tempo: <\/strong>a refer\u00eancia temporal \u00e9 constru\u00edda a partir do movimento \u201cM\u00e3es de Bragan\u00e7a\u201d em 2003 at\u00e9 o momento da produ\u00e7\u00e3o da not\u00edcia em 28\/04\/2008. A ordem cronol\u00f3gica se estabelece em um espa\u00e7o temporal de cinco anos, no qual h\u00e1 a refer\u00eancia d\u00eaitica a um passado e a um presente. Ambos s\u00e3o elucidados a fim de se mostrar a continuidade da prostitui\u00e7\u00e3o em Bragan\u00e7a na atualidade, apesar das denuncias feitas em 2003 pelo movimento \u201cM\u00e3es de Bragan\u00e7a\u201d.<strong> <\/strong>Ele \u00e9 o marco referencial para a constitui\u00e7\u00e3o e desenvolvimento do espa\u00e7o temporal da prostitui\u00e7\u00e3o em Bragan\u00e7a na not\u00edcia. Isso pode ser visto, at\u00e9 mesmo, no t\u00edtulo da not\u00edcia \u201cFilhas de Bragan\u00e7a\u201d, cujo termo \u201cfilhas\u201d \u00e9 uma substitui\u00e7\u00e3o temporal do termo \u201cm\u00e3es\u201d (das \u201cM\u00e3es de Bragan\u00e7a\u201d do passado nasce, na atualidade, as \u201cFilhas de Bragan\u00e7a\u201d).<strong> <\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Verificamos que as refer\u00eancias d\u00eaiticas, os <em>shifters<\/em> e os substantivos axiol\u00f3gicos apontam a constru\u00e7\u00e3o de uma enuncia\u00e7\u00e3o espec\u00edfica \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o. O jornal <em>Expresso<\/em>\/sociedade portuguesa\/prostitutas brasileiras (eu\/tu\/ele), circunscreve pela linguagem os outros elementos da not\u00edcia, ou seja, o espa\u00e7o e o tempo da enuncia\u00e7\u00e3o. Todas essas refer\u00eancias apontam as marcas de subjetividade que se constitui no discurso em quest\u00e3o. Essas marcas est\u00e3o presentes na enuncia\u00e7\u00e3o do jornal <em>Expresso<\/em> e podem ser identificadas de diversas maneiras. Nossa interpreta\u00e7\u00e3o da constitui\u00e7\u00e3o da subjetividade na linguagem \u00e9 uma forma de realizar essa identifica\u00e7\u00e3o dentro das condi\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o em que estamos inseridos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">BRAND\u00c3O, H. H. N. Subjetividade, argumenta\u00e7\u00e3o e polifonia. S\u00e3o Paulo: Unesp, 1998.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">GOMES, M. R. Pr\u00e1tica jornal\u00edstica: o olhar, a voz e a escrita. In: ______. Jornalismo e<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">ci\u00eancias da linguagem. Hacker Editores\/Edusp, 2000, p. 57-67.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">POSSENTI, S. L\u00edngua e discurso. In: ______. Discurso, estilo e subjetividade. 2 ed. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2001, p. 61-85.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\"><strong> <\/strong><\/span><\/p>\n<hr size=\"1\" \/><span style=\"color: #000000\"><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> Este texto \u00e9 vers\u00e3o resumida de <a href=\"http:\/\/www2.metodista.br\/unesco\/1_Celacom%202010\/arquivos\/Trabalhos\/43-As%20marcas%20da%20subjetividade%20no%20discurso_J%C3%A9ssicadeC%C3%A1ssia.pdf\" target=\"_blank\">trabalho<\/a> apresentado no Celacom (Col\u00f3quio Internacional sobre a Escola Latino-Americana de Comunica\u00e7\u00e3o) 2010.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e9ssica de C\u00e1ssia Rossi \u00c9 comum pensarmos que a subjetividade \u00e9 uma capacidade existente no homem em qualquer situa\u00e7\u00e3o de sua vida[1]. Pensamos que, de qualquer modo, ele pode refletir sobre si mesmo e o mundo ao seu redor. 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