{"id":1940,"date":"2016-04-30T12:35:06","date_gmt":"2016-04-30T15:35:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www2.faac.unesp.br\/blog\/obsmidia\/?p=1940"},"modified":"2016-05-27T12:40:23","modified_gmt":"2016-05-27T15:40:23","slug":"2016-um-ano-em-que-precisamos-falar-sobre-mulheres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.faac.unesp.br\/blog\/obsmidia\/2016\/04\/30\/2016-um-ano-em-que-precisamos-falar-sobre-mulheres\/","title":{"rendered":"2016, um ano em que precisamos falar sobre mulheres"},"content":{"rendered":"<p><strong><span style=\"color: #000000\">\u2016 \u2016 \u2016 Agnes Sofia Guimar\u00e3es Cruz \u2016 \u2016 \u2016\u00a0<\/span><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">No segundo semestre de 2015, as redes sociais foram movimentadas para o ativismo virtual praticado por feministas brasileiras. Sites como <span style=\"color: #0000ff\"><a style=\"color: #0000ff\" href=\"http:\/\/thinkolga.com\/\" target=\"_blank\">Think Olga<\/a><\/span> e a revista digital <span style=\"color: #0000ff\"><a style=\"color: #0000ff\" href=\"http:\/\/azmina.com.br\/\">AzMina<\/a><\/span> criaram campanhas como #meuamigosecreto e #assedionotrabalho, em que mulheres compartilharam hist\u00f3rias em suas contas pessoais sobre situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancias enfrentadas por elas, desde o ass\u00e9dio sofrido nas ruas e no ambiente de trabalho at\u00e9 agress\u00f5es f\u00edsicas e verbais em relacionamentos dom\u00e9sticos e abusivos. Essas movimenta\u00e7\u00f5es nas redes sociais chamaram a aten\u00e7\u00e3o de grandes ve\u00edculos, como as revistas Veja e Isto \u00e9, que colocaram na capa a Primavera Feminista, nome que rapidamente come\u00e7ou a ser dado por esse momento.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Ao mesmo tempo, a viol\u00eancia contra comunicadoras e ativistas que lutam por quest\u00f5es de g\u00eanero come\u00e7a a ser objeto de estudo de institutos como a Unesco e a <a style=\"color: #000000\" href=\"http:\/\/artigo19.org\/blog\/2015\/05\/03\/violacoes-a-liberdade-de-expressao-relatorio-anual-2014-3\/\" target=\"_blank\"><span style=\"color: #0000ff\">Artigo 19<\/span>,<\/a> entidade que, todo ano, lan\u00e7a um dossi\u00ea sobre a viol\u00eancia contra como comunicadores no pa\u00eds. No seu \u00faltimo documento, publicado em 2015, h\u00e1 a observa\u00e7\u00e3o dos poucos registros de den\u00fancia sobre atos de viol\u00eancia cometidos contra comunicadoras: al\u00e9m de quest\u00f5es relacionadas a medo e inseguran\u00e7a pelas consequ\u00eancias das den\u00fancias, a viol\u00eancia sofrida por elas seria estrutural, acometida dentro das reda\u00e7\u00f5es (ass\u00e9dio sexual, censura de reportagens e outras viol\u00eancias simb\u00f3licas). Para o ano de 2016, a entidade divulgar\u00e1 um estudo espec\u00edfico sobre essas outras formas de viol\u00eancia que, entre ativistas virtuais, encontram ecos em mensagens de amea\u00e7as e movimentos para bloquear suas p\u00e1ginas nas redes sociais. O discurso de \u00f3dio, nesse contexto, al\u00e9m de representar uma viol\u00eancia de g\u00eanero, causa propor\u00e7\u00f5es mis\u00f3ginas, em verdadeiros exemplos de avers\u00e3o n\u00e3o apenas ao discurso, mas tamb\u00e9m ao corpo feminino enquanto corpo social.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">No ano de 2015, as alunas Agnes Sofia Guimar\u00e3es Cruz e Let\u00edcia Ferreira, orientadas pelo professor Danilo Rothberg, realizaram uma reportagem de f\u00f4lego, multim\u00eddia, sobre essa outra forma de viol\u00eancia contra comunicadoras. O trabalho foi financiado pelo Instituto Vladimir Herzog e sua primeira vers\u00e3o j\u00e1 <a style=\"color: #000000\" href=\"http:\/\/vladimirherzog.org\/jovem-jornalista\/7o-premio-jovem-jornalista-edicao-2015\/\">encontra-se no seu site.<\/a><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Do material complementar \u00e0 reportagem, houve uma entrevista com o psicanalista Christian Dunker (CD). Coordenador do Laborat\u00f3rio de Teoria Social, Filosofia e Psican\u00e1lise da USP, o psicanalista Christian Dunker \u00e9 conhecido por abordar temas sociais e do \u00e2mbito da viol\u00eancia dentro de estudos cl\u00e1ssicos da psican\u00e1lise e da antropologia. Na entrevista, ele explica como observa o discurso de \u00f3dio contra mulheres enquanto nega\u00e7\u00e3o a costumes contr\u00e1rios a normas tradicionais de sexualidade e express\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\"><strong>Como o discurso de \u00f3dio afeta a liberdade de express\u00e3o de ativistas de movimentos sociais, de um modo geral?<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">CD &#8211; H\u00e1 muitas incid\u00eancias do \u00f3dio como afeto pol\u00edtico, mas a mais perniciosa, que infelizmente encontra-se em ascens\u00e3o no Brasil de nosso tempo, \u00e9 a aquela que utiliza o \u00f3dio a um grupo para fortalecer os la\u00e7os internos de outro. Lacan dizia que a segrega\u00e7\u00e3o \u00e9 uma determinada incid\u00eancia do real na sociedade e que corresponde \u00e0 emerg\u00eancia de uma verdade que n\u00e3o pode suportar sobre si mesma. O discurso do \u00f3dio, que curiosamente emerge depois da incapacidade para lidar com uma derrota de interesses, insiste que estes \u201coutros\u201d, que n\u00e3o pensam como \u201cn\u00f3s\u201d, n\u00e3o deveriam ter direito a exist\u00eancia, eles deveriam estar fora de nosso \u201ccondom\u00ednio\u201d. Digo condom\u00ednio porque \u00e9 assim que, para este discurso, \u00e9 pensada a coisa p\u00fablica: ela \u00e9 uma concess\u00e3o que o Estado me entregou e com ela n\u00f3s fazemos o que \u00e9 melhor para n\u00f3s.\u00a0 Os ativistas de movimentos sociais s\u00e3o os primeiros a sofrer com este discurso, porque \u00e9 um discurso que precisa de inimigos, que precisa modificar o que dizem seus advers\u00e1rios em uma vers\u00e3o que se adapte ao \u00f3dio que j\u00e1 se encontra latente na rela\u00e7\u00e3o com o outro. Feito este \u201cespantalho\u201d, em seguida \u00e9 s\u00f3 mover a turba para mais um linchamento.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\"><strong>Como o senhor acha que o conceito de g\u00eanero, atualmente, est\u00e1 se reconfigurando com esses novos embates entre grupos sociais e pessoas contr\u00e1rias a tais movimentos?<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">CD &#8211; Eu entendo a luta dos movimentos ligados a g\u00eaneros em dois planos distintos e em nenhum dos casos reduziria esta luta \u00e0 reinvindica\u00e7\u00e3o de direitos. Entendo que ela \u00e9 muito mais uma luta em torno da produ\u00e7\u00e3o de uma experi\u00eancia de reconhecimento. Uma verdadeira experi\u00eancia de reconhecimento \u00e9 muito mais do que toler\u00e2ncia, adequa\u00e7\u00e3o e leis de conformidade.\u00a0 Ela passa pelo \u00e2mbito institucional, mas \u00e9 muito mais interessante e de certa forma muito mais produtiva do que isso. No primeiro plano est\u00e1 a articula\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas em tordo da identidade de grupos que sofrem discrimina\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, persistente e generalizada. Grupos que sofrem porque est\u00e3o excessivamente determinados por certas narrativas que qualificam gays, l\u00e9sbicas, transg\u00eaneros como unidades patol\u00f3gicas, moralmente individualizadas ou moralmente repudiadas. Neste plano o discurso de \u00f3dio sempre os tomar\u00e1 como exemplos maiores daquilo que desestabiliza a ordem, daquilo que \u00e9 o exemplo de uma contrariedade da norma. Sempre me pareceu bastante curioso, e insuficientemente estudado, o fato de que todos os regimes totalit\u00e1rios perseguissem de uma forma ou outra as pessoas, para as quais n\u00e3o se verifica a unidade heterossexual entre sexo, g\u00eanero e modalidade de gozo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\"><strong>Quais mecanismos de poder ou opress\u00e3o, vistos em outras situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia, s\u00e3o reproduzidos em viol\u00eancias discursivas?<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">CD &#8211; Quando vemos a ascens\u00e3o de uma civiliza\u00e7\u00e3o em forma de condom\u00ednio, organizada por muros e s\u00edndicos, por regulamentos, cujo afeto fundamental \u00e9 o medo e a inveja, geralmente temos esta atitude de perguntar, como a bela alma hegeliana: <em>mas como isso foi acontecer? <\/em>Isso foi acontecer porque fomos n\u00f3s tornando parcialmente seletivos ao que chamamos de viol\u00eancia, fomos comprando uma mentalidade legalista e judicialista de viol\u00eancia. Ent\u00e3o se o sujeito n\u00e3o comete um ato e infringe o c\u00f3digo penal n\u00f3s consideramos que ele est\u00e1 \u201clivre\u201d para fazer e falar e se portar sem restri\u00e7\u00f5es.\u00a0 Com isso nos esquecemos que raramente a viol\u00eancia come\u00e7a com o ato, em geral ela vem antes como discurso. Mas o discurso n\u00e3o nos preocupa, e quando o faz vem logo a rea\u00e7\u00e3o de que a liberdade de express\u00e3o n\u00e3o pode ser tocada, ou seja, leis de novo, desta feita uma das mais constitucionais e importantes. Mas ser\u00e1 mesmo que s\u00f3 temos o campo da lei para pensar a viol\u00eancia? Ser\u00e1 mesmo que s\u00f3 podemos pensar a viol\u00eancia como monop\u00f3lio do Estado (ali\u00e1s, quem faz as leis) e como transgress\u00e3o dos criminosos?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\"><strong>E como ocorre essa quest\u00e3o quando fazemos um recorte de g\u00eanero?<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">CD &#8211; Entendo que h\u00e1 uma especificidade na viol\u00eancia de g\u00eanero, assim como no sofrimento de g\u00eanero. Neste caso h\u00e1 uma articula\u00e7\u00e3o entre exerc\u00edcio de poder, que recorta transversalmente a rela\u00e7\u00e3o entre sexo, g\u00eanero e modalidade de gozo. Isso tem a ver com nossas teorias sobre a g\u00eanese do poder, que s\u00e3o sincr\u00f4nicas, algumas vezes, com nossas teorias sobre a g\u00eanese do sexo, enquanto refer\u00eancia para o desejo, do g\u00eanero, como refer\u00eancia para a identidade ou de nossas modalidades preferenciais de gozo. Dito isso, podemos definir a viol\u00eancia como uma esp\u00e9cie de efeito das rela\u00e7\u00f5es inconcili\u00e1veis e tamb\u00e9m insepar\u00e1veis da equa\u00e7\u00e3o sexo-poder. Os rituais de humilha\u00e7\u00e3o, o discurso do \u00f3dio, a ret\u00f3rica da intoler\u00e2ncia e a gram\u00e1tica da indiferen\u00e7a s\u00e3o todos exemplos de como podemos fracassar em reconhecer o regime contingente de articula\u00e7\u00e3o entre os termos de nosso problema. Exemplos de como a nega\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a \u00e9 uma maneira de manter a diferen\u00e7a operando como iniquidade social, preconceito, segrega\u00e7\u00e3o ou desigualdade. A psican\u00e1lise e boa parte da teoria social cr\u00edtica percebeu que sexualidade, g\u00eanero e modalidades de gozo precisam de uma teoria do reconhecimento que v\u00e1 al\u00e9m do contratualismo individualista baseado no sujeito racional com respeito a fins.\u00a0 Esta teoria deve reservar algum lugar para o que ainda n\u00e3o pode ser reconhecido, para o que ainda n\u00e3o tem nome ou figura. Sem isso ela n\u00e3o conseguir\u00e1 entender a viol\u00eancia se n\u00e3o como transgress\u00e3o da norma e reconfigura\u00e7\u00e3o da norma de maneira melhor e mais forte. Esta teoria do reconhecimento nos ajudaria a entender porque a viol\u00eancia de g\u00eanero se apoia na reifica\u00e7\u00e3o de certas narrativas sobre o sofrimento e como resposta a uma suposta amea\u00e7a \u00e0 nossa integridade narc\u00edsica e demais justificativas discursivas que est\u00e3o na g\u00eanese social da viol\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2016 \u2016 \u2016 Agnes Sofia Guimar\u00e3es Cruz \u2016 \u2016 \u2016\u00a0 &nbsp; No segundo semestre de 2015, as redes sociais foram movimentadas para o ativismo virtual praticado por feministas brasileiras. 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