Luiz Fernando Carneseca
Luiz Fernando Carneseca é representante do DAEE (Departamento de Águas e Energia Elétrica) no Comitê de Bacias Hidrográficas do Alto Tietê (CBH-AT). Para ele, no Brasil são poucos os locais onde realmente há uma deficiência hídrica, sendo possível, na maioria das regiões do país, notar uma certa abundância e disponibilidade razoável de água. Tal situação colabora com a chamada cultura do desperdício.
A cultura do desperdício de água pode ser associada à ilusão de abundância de recursos naturais, aliada à escassa disciplina e falta de conhecimento dos usuários e pouco monitoramento por parte de gestores. Luiz Fernando acredita que o que falta ao setor é promover a disseminação de informações sobre a gestão das águas. “Muitas vezes, tanto a legislação ambiental como a organização de recursos hídricos ficam restritas ao conhecimento daquele grupo que trabalha em determinado setor”, analisa. “A gente consegue ver claramente que é um ambiente restrito. Você não tem uma difusão do que é direito, dever ou possibilidade”.
Segundo estudo do Instituto Trata Brasil, financiado por empresas que atuam na exploração comercial de serviços de saneamento e recursos hídricos, o Estado de São Paulo chega a perder 35% de água durante sua distribuição. Considerando-se a porcentagem de água que não chega às residências da população, devido a problemas com questões físicas do abastecimento, como vazamentos em distribuidores, percebe-se que o volume desperdiçado poderia ser usado para abastecer cerca de 30% da população brasileira pelo período de um ano.
Para Luiz Fernando, a população trata a água como um direito, mas não atenta ao desperdício. Assim, acaba-se por criar uma cultura de não apropriação, de não conservação e de não proteção. “Quando começam a existir épocas de escassez, aí sim começam a dar importância à água”, disse.Além disso, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), a ineficiência na gestão dos recursos hídricos do Brasil colabora com o desabastecimento em algumas regiões. Luiz Fernando defende a ideia de que falta na sociedade o costume de participação, percebendo-se que são poucos os que entram para os comitês de bacias hidrográficas (tanto estaduais como federais) possuindo uma visão de trabalho em conjunto, participativo e corresponsável. “Há pessoas que vão muito mais pra defender um interesse individual, o interesse de um grupo e não o interesse coletivo. Eu creio que um dos problemas que se tem hoje no funcionamento dos comitês é essa questão da falta de uma tradição, de uma visão para o bem comum”.
Flávia Gomes Gasparini
