João Ramos

João Ramos é advogado especialista em meio ambiente e ex-membro representante da Prefeitura de Embu das Artes. Ele reflete sobre a educação ambiental ser tida como um instrumento de disseminação de informações sobre a água para as diversas camadas sociais. A cultura da água difere quando utilizada por uma comunidade que vive ao redor das margens de um rio, e por consumidores de uma cidade que não possuem muito conhecimento sobre o recurso hídrico: “Podemos dizer que são duas visões: aquela água para o consumo, que não se tem noção de onde vem e todo o processo que essa água percorre para chegar nas torneiras, e a água propriamente dita como recurso natural, com os próprios rios e cursos d’água em torno de comunidades, então é uma relação completamente diferente”.

Na área dos órgãos que necessitam desse conhecimento aprofundado, como os comitês, há muitas pesquisas desenvolvidas sobre os recursos hídricos, mas  que não são traduzidas para a população como deveriam, pois a informação é, segundo Ramos, algo ainda muito técnico. “A água que eu bebo é a mesma água que eu jogo meu lixo e meu esgoto? Lamentavelmente, a resposta é sim”, comenta. Mas como disseminar esse conteúdo? Para ele, essa educação ambiental deve ser transmitida a todo tecido social, familiar e escolar, com destaque para datas comemorativas importantes como o Dia da Água e do Meio Ambiente, que podem servir como oportunidades para que uma ideia de preservação viável a todos seja propagada de forma mais didática e acessível.

A partir desse momento de disseminação, é possível ampliar o nível de consciência e responsabilidade social. Com a divulgação de informações atual do comitê, o fluxo de opiniões da sociedade, em retorno, é suficiente? Para Ramos, ainda pode ser melhorado: “Ele já existe, porém tem a dificuldade de traduzir a carga de informações técnicas para uma informação de maior entendimento da grande massa, a informação na forma prática para a mudança de atitude”. Ele cita a veiculação de propagandas como a campanha para conscientizar a população sobre o problema do desperdício de água no verão da Sabesp, a companhia de água e saneamento de São Paulo, de 2017, que traduz bem o conteúdo para uma linguagem atual e jovem, em forma de música. 

A cultura da água é uma relação de consumo e necessidade, mas ainda com cuidados não tão divulgados sobre seu uso enquanto recurso natural, segundo Ramos. “Os próprios comitês tem que se preocupar em fazer essa tradução”, comenta. Para ele, o avanço nesse processo de repassar o conhecimento técnico para o tecido social é uma das grandes preocupações do comitê. “Por que eu pensaria que tenho uma parcela de responsabilidade com a água? Deve ter uma maneira de fazer o indivíduo pensar sobre isso”, questiona Ramos. Ele acredita que é preciso, primeiramente, perceber a importância do processo da água, não só com os termos específicos, mas com uma tradução de informações que é um desafio recorrente para os comitês. 

Ainda há bastante espaço a ser avançado com o Comitê de Bacia Hidrográfica do Alto Tietê (CBH-AT) ao falar dos planos de gerenciamento da água; não só na preocupação de reservação e distribuição, mas também na percepção da importância do estado com sua escassez em disponibilidade hídrica. Apesar das crises hídricas terem trazido grande visibilidade na mídia à problemática da água, a crise que ocorreu uma vez ainda pode retornar. Aprimorando seu uso e reuso, os usuários da água devem ter consciência da utilização e monitorar o consumo atual, com o auxílio do comitê como um ambiente que pode trazer e disseminar boas práticas, novas políticas e corresponsabilidades de toda a população para um consumo mais racional.

João Pedro Voltarelli